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OPINIÃO | A identidade açoriana além arquipélago: Potencialidades e Desafios para os Açores e a Diáspora, por Diniz Borges

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“Não devemos de forma alguma preocupar-nos com o que diz a maioria, 
mas apenas com a opinião dos que têm conhecimento do justo e do injusto, 
e com a própria verdade.” Platão

Há cerca de 15 anos, duas dezenas de pessoas ligadas a várias organizações da comunidade portuguesa na zona de Tulare, no centro da Califórnia, participaram num colóquio cujo objectivo era dar o primeiro passo para pensar-se na comunidade, e a partir daí, construir o futuro.  É que apesar das inúmeras conversas de café, dos índices claros e inequívocos que a comunidade está a mudar persistimos em perpetuar os mesmos hábitos comunitários.  Temos as mesmas festas; as mesmas atividades culturais, cada vez menos participativas; os mesmos congressos (felizmente alguns mudaram para sistema virtual), com os mesmos interlocutores e com salas vazias; os mesmos encontros, onde se lamenta a eterna falta de gente jovem, até as mesmas missas com muito menos fieis. É urgente, particularmente em época de festa, quando por toda a Califórnia saímos à rua para desfilarem em nome do Espírito Santo, da Senhora de Fátima, dos Santos Populares, ou uma vez por ano, e apenas num recinto da Califórnia, também desfilamos, em nome de Camões (mas com as mesmas características das outras festas), que se reflita a nossa diáspora, este nosso desejo de passar o nosso legado cultural e linguístico às novas gerações.  

Se é certo que este não é um tema novo, também não é menos verdade que enquanto não se construírem alicerces para uma reflexão séria, aberta, despretensiosa, com espírito crítico e vontade de ultrapassar o impasse em que nos encontramos, (apesar de não quereremos enfrentar esse mesmo impasse, até dizemos que não existe) nada será feito e estaremos, como disse um dia um amigo meu: “caminhando alegremente para o suicídio.”  Porque, enquanto as pessoas instaladas estão satisfeitas com o que fazem e como fazem, e raramente dão oportunidade a outros, particularmente aos mais novos e nestes os que têm novas ideias (porque infelizmente temos muita gente nova com ideias velhas), perde-se uma geração de açor-descendentes para os quais a comunidade está cada vez mais regressiva.  

Os nossos desafios na diáspora açoriana, e particularmente na diáspora açoriana da maior comunidade fora dos Açores num estado americano, a Califórnia, são múltiplos e alguns não os queremos admitir porque é muito mais fácil não os pensar.  Um pouco por todo o estado ouve-se queixas de que a gente jovem (refiro-me a jovens adultos entre os 18 e os 35 anos) não querem “meter-se” no nosso movimento associativo.  É verdade, os jovens adultos, particularmente os que têm cursos universitários, descobrem outros mundos, por vezes mudam-se para outras zonas, e ficam, com cada dia que se passa, mais americanos e menos açorianos.  Porém não é menos verdade que muitas vezes, ao aproximarem-se da comunidade encontram barreiras.  Essas barreiras, por vezes estão ligadas à língua, porque os jovens já preferem o inglês e algumas associações insistem em “Portuguese Only”.  Em alguns casos “Bad Portuguese Only“.  Ou então temos a barreira do medo.  Refiro-me ao receio dos mais idosos que a associação a que pertencem ou presidem, poderá ser muito diferente.  E os seres humanos (a vasta maioria), infelizmente, têm medo do que não conhecem. E esse pavor do futuro faz-nos letárgicos.  Seria bom que perdêssemos o medo dos mais novos, que apostássemos em ideias diferentes e até inconvenientes, porque as novas gerações para aí caminham.  Tal como nos disse Platão: “Facilmente se perdoa uma criança por ter medo do escuro, a verdadeira tragédia é quando os homens têm medo da luz.” 

Pensar as comunidades, para que as tenhamos no dia de amanhã, já tão perto do hoje que vivemos, significa ainda, estarmos predispostos a começarmos um diálogo sem rodeios, sem preconceitos, sem interesses escondidos e sem egoísmos efémeros.  Daí que continuo a propor um Fórum da Diáspora Açoriana.  Há que assumirmos a diáspora que somos (sem elogios fáceis e gratuitos como nos habituou alguma classe política e diplomática) e falar abertamente da comunidade que gostaríamos de ser.  Há que estabelecer-se regras, mas abolir todos os tabus.  Há que passar além dos altares erguidos, das nefastas capelinhas e dos herois de pés de barros, para penetrar-se o âmago da diáspora que temos e da que ainda podemos construir, neste primeiro quartel do século XXI.

Daí que o Fórum da Diáspora Açoriana terá de ser um espaço onde se fale do que é importante salvaguardar e do que pode ficar na beira do prato, ou jogar-se para o rol do esquecimento.  Do que é efémero e para as pessoas gozarem a vida (com todo o direito que todos temos dessas felicidades) e do que verdadeiramente é perene e justifica outra visão e novas metodologias.  Reflectir-se de uma forma harmónica e lúcida tudo o que compõe a nossa diáspora, desde a rádio à televisão, dos jornais, às instituições culturais, cívicas, religiosas, desportivas e sociais.  Há que contemplar-se as escolas, os cursos de língua e cultura portuguesas (sem usarmos nuances fictícias que ainda há pouco vimos nos jornais de Portugal e de algumas comunidades-sem que nenhum jornalista questionasse o que foi pura propaganda de um sistema de jobs for the boys), os centros de língua e os de estudos portugueses e há que debater-se a cultura popular, desde o Carnaval às festas de verão.  E não se deve ter apreensão de se chamar, como se diz popularmente na minha terra: os bois pelos nomes.    Um mau programa de rádio, é um mau programa de rádio; uma associação letárgica, é uma associação letárgica; uma festa corriqueira, é uma festa corriqueira; uma companhia de seguros, é uma companhia de seguros; um mau político, é um mau político, mesmo que seja luso-descendente; um mau congresso, é um mau congresso; um centro de língua virtual, é um centro de língua virtual; um mau curso de língua e cultura portuguesas, é um mau curso de língua e cultura portuguesas; um líder comunitário oportunista, é um líder comunitário oportunista; uma associação fictícia, é uma associação fictícia; um mau programa de televisão é um mau programa de televisão, um mau artigo num jornal (como talvez este até seja) é um mau artigo. É que só com as cartas na mesa, como dizia meu pai, é que podemos refletir a diáspora e levá-la ao patamar que gostaríamos em que a mesma estivesse.  Diria mesmo, ao patamar que a comunidade de amanhã merece, ou precisa, se queremos ser relevantes no mundo californiano, americano.

Em conclusão, e porque estamos na época festiva por toda a Califórnia, peço a quem de direito, que somos todos quantos acreditamos numa diáspora viva e interligada, que ao longo das festas e romarias, quando se discute tudo, desde política a religião, passando pelo mais alto de todos os deuses, o futebol, se entre tudo e todos, também pudéssemos refletir a nossa diáspora, ou melhor as nossas comunidades da nossa diáspora, já que, quer queiram, quer não, estamos espalhados por todo este enorme estado da Califórnia e por toda a união americana.  Um Fórum da Diáspora Açoriana é essencial para quem se preocupa com estas questões tenha um espaço adequado para se dialogar e discordar. A diáspora só poderá crescer se a quisermos olhar com olhos do século XXI, e não com o saudosismo de um passado que não volta.  Há uma imensa oportunidade para irmos além da festa da comunidade local.  Pelo envolvimento dos nossos filhos e netos em todas as esferas do mundo californiano, ao que alargaria ao mundo americano e canadiano, há uma amálgama de oportunidades para a nossa herança cultural ser refrescada, ir além do mesmo grupo que quer fazer tudo e controlar tudo (velhos e novos), de darmos espaços a quem em outras latitudes e outros mundos (fora do gueto comunitário) pode dar outras asas a uma diáspora integrada e atuante, consciente da sua posição no mundo que a rodeia e ligada aos Açores, não só pela visita ocasional, mas sobretudo, pelos mais variados sectores, desde a indústria ao ensino, das artes plásticas à literatura, da tecnologia à política.  É tempo de na diáspora termos outro relacionamento com os Açores e de neste lado e no lado de lá, entendermos que a cultura açoriana é muito mais do que uma festa de comes e bebes, um desfile momentâneo e uma noite de farra.  Que em ambos os lados há imenso talento e muito a descobrir, que, infelizmente fica encoberto, quando nos deixamos ir pelo que é vistoso e envernizado.  Quando nos deixamos tombar pelo discurso oportunista de alguns políticos e diplomatas, ou pelas ocorrências efémeras e por vezes corriqueiras que não nos enriquecem, nem como diáspora, nem como seres humanos, enfraquecemos a nossa diáspora e as potencialidades que a mesma poderá ter para a Região Autónoma.  

O legado açoriano além do arquipélago, precisa de ser cuidado, antes que descambe por completo para o reinado pimba.  É que o pimba não está, infelizmente, só na música, anda por aí à solta e cultiva campos que outrora se pensava incultiváveis.          

Mauricio De Jesus
Maurício de Jesus é o Diretor de Programação da Rádio Ilhéu, sediada na Ilha de São Jorge. É também autor da rubrica 'Cronicas da Ilha e de Um Ilhéu' que é emitida em rádios locais, regionais e da diáspora desde 2015.