OPINIÃOSÃO JORGE

OPINIÃO | O Paradoxo da Fé do Espírito Santo: Uma Coroa Para o Pecador, por Cecília Brasil

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Há uns meses atrás, um caso ocorrido na ilha de S. Jorge tornou-se tema de condenação nas plataformas sociais. Em geral, os comentários foram de indignação, incompreensão e julgamento. No centro do caso está um homem acusado de tentativa de homicídio do próprio irmão por supostas “questões de herança” — e, simultaneamente, mordomo do sexto jantar do Espírito Santo na Vila do Topo.

Ora, para muitos açorianos, estas duas realidades parecem incompatíveis. Como pode alguém associado a um acto tão grave assumir uma responsabilidade ligada a uma das tradições espirituais mais emblemáticas das ilhas? A pergunta é legítima. Mas talvez a resposta revele algo mais profundo sobre a essência do culto do Espírito Santo e sobre a própria condição humana.

Vivemos tempos em que a sociedade rapidamente reduz as pessoas ao pior momento das suas vidas. Um erro, uma acusação ou uma decisão desesperada tornam-se suficientes para definir toda uma existência. Contudo, aquilo que raramente conhecemos são as circunstâncias invisíveis que antecedem certos actos: os traumas acumulados, a solidão, as fragilidades emocionais, a pobreza silenciosa ou a ausência de apoio humano e psicológico.

O homem em questão não é conhecido na comunidade como criminoso habitual, nem como uma figura de violência pública. Pelo contrário. Muitos reconhecem nele alguém marcado por uma vida precária, com poucos [bons] amigos, alguém que confronta diariamente os seus próprios vícios, traumas e isolamento social. Talvez alguém que, antes do julgamento público, precisasse de apoio e orientação muito antes de chegar ao limite onde alegadamente chegou.

Nada disto anula a gravidade do caso. A vítima — o irmão — merece todo o apoio emocional, comunitário e legal. Tem o direito absoluto de pedir justiça e proteção. Nenhum arrependimento espiritual deve apagar o sofrimento de quem foi alvo de violência ou viveu o medo de perder a própria vida.

Dito isto, justiça e compaixão não precisam de ser inimigas! Todos sabemos que crimes desta gravidade não destroem apenas a vida da vítima, mas também a dos familiares e até a do próprio acusado.

Mas aquilo que mais me chamou a atenção neste episódio tão singular foi precisamente a reação da população do Topo.

Apesar dos comentários inevitáveis — porque existe sempre um fariseu pronto a discursar da plateia — a maior parte da população escolheu não ostracizar o homem, mas ajudá-lo a levantar-se e a assumir responsabilidade pelos seus actos. Não apenas pelo alegado crime, mas também por levar a cabo o jantar que havia prometido organizar antes do sucedido.

Os preparativos tiveram de ser feitos longe da casa do Espírito Santo e com maior modéstia, mas ainda assim não faltaram colaboração, presença e apoio. A comunidade trabalhou ao seu lado, ajudou-o a cumprir a sua responsabilidade e tratou-o como alguém ainda digno de pertencer àquela terra e àquela gente.

E talvez aí resida o verdadeiro paradoxo da fé do Espírito Santo no Topo?!

Historicamente, o culto ao Divino Espírito Santo tem raízes profundas no misticismo milenarista, e trazido pelos franciscanos, ganhou um fervor muito próprio nas ilhas por conseguir unir pessoas de origens profundamente diferentes. Aos Açores chegaram cristãos, judeus e muçulmanos; pobres e ricos, homens livres e pessoas escravizadas, traficadas para estas ilhas, criminosos enviados por sentença, exilados, perseguidos e deslocados. Num território pequeno, isolado e marcado por grandes diferenças económicas, sociais e culturais, o culto do Espírito Santo tornou-se um símbolo de união e pertença.

Ao contrário de outras expressões religiosas mais dependentes da hierarquia da Igreja, o culto do Espírito Santo nos Açores desenvolveu-se através de irmandades profundamente ligadas ao povo, à comunidade e aos valores da misericórdia e da compaixão — não apenas para com o virtuoso, mas também para com o pecador. Talvez por isso tenha mantido, até aos dias de hoje, essa dimensão quase igualitária, onde a posição social, a riqueza, a reputação ou até os erros pessoais não definem totalmente o valor de alguém que se oferece para tomar a festa.

Não importa totalmente a posição social, a riqueza, a reputação ou mesmo as quedas pessoais: qualquer pessoa pode, por uma semana, ser mordomo da festa.

Existe algo profundamente simbólico no facto de este homem ter assumido a sua responsabilidade precisamente no mesmo ano em que alegadamente cometeu o seu crime. Para alguns será mera coincidência. Para outros, uma provocação moral. Mas há também quem veja nestes acontecimentos os caminhos misteriosos através dos quais a consciência humana é confrontada consigo própria.

Por vezes, Deus — ou a vida, para quem não é religioso — fala-nos através das situações mais improváveis. Não através da perfeição pública, mas da queda. Não através dos santos intocáveis, mas através daqueles que chegam ao limite da própria humanidade e ainda assim encontram alguém disposto a ajudá-los a levantar-se.

Obviamente, o futuro dirá se este abraço comunitário será suficiente para que este homem consiga reconstruir a sua vida com mais responsabilidade, consciência e, quem sabe, reconectar-se com a sua própria família. Mas é difícil acreditar que um gesto destes não tenha impacto. Da mesma forma que o ódio e a injustiça geram mais ódio e mais injustiça, também o amor, a empatia e a caridade podem gerar mudança.

Não podemos deixar de reconhecer esta população por ter escolhido fazer o mais difícil: reconhecer a gravidade do acto sem negar totalmente a humanidade de quem caiu em desgraça.

E talvez isso diga mais sobre o verdadeiro espírito do Espírito Santo do que muitos sermões alguma vez conseguirão explicar.

Mauricio De Jesus
Maurício de Jesus é o Diretor de Programação da Rádio Ilhéu, sediada na Ilha de São Jorge. É também autor da rubrica 'Cronicas da Ilha e de Um Ilhéu' que é emitida em rádios locais, regionais e da diáspora desde 2015.