OPINIÃO | José Ávila: a imprensa ao serviço da portugalidade na Califórnia, por Daniel Bastos

Uma das marcas mais distintivas das comunidades portuguesas espalhadas pelos quatro cantos do mundo é, indiscutivelmente, a sua notável capacidade empreendedora. Essa realidade é amplamente comprovada pelas trajetórias de inúmeros compatriotas que, nas mais diversas geografias, edificaram empresas de sucesso e assumiram papéis de relevo nos planos cultural, social, económico, político e associativo, contribuindo simultaneamente para o prestígio de Portugal e para o desenvolvimento das sociedades de acolhimento.
Entre os múltiplos exemplos de líderes comunitários e promotores da cultura portuguesa na diáspora, hoje cada vez mais reconhecida como um ativo estratégico da projeção internacional de Portugal, destaca-se, ao longo das últimas décadas, o percurso exemplar e abnegado de José Ávila em prol da portugalidade, em geral, e da açorianidade, em particular, na Califórnia, estado que alberga a maior comunidade de origem portuguesa dos Estados Unidos da América.
Nascido em 1945, em Angra do Heroísmo, na ilha Terceira, e filho de pais naturais da ilha Graciosa, José Ávila viveu a infância em Santa Cruz da Graciosa, regressando posteriormente a Angra do Heroísmo para concluir o ensino secundário. Cumpriu serviço militar por duas vezes no Exército português e frequentou o curso de Engenharia Eletrotécnica na Universidade de Aveiro. Já no ocaso do Estado Novo, foi novamente mobilizado para o curso de capitães, em Mafra, onde permaneceu até depois da Revolução dos Cravos, em 1974.
Na década de 1960, casou, em Angra do Heroísmo, com a sua companheira de vida, Ilda Vale, consolidando na família, entretanto enriquecida com três filhos e oito netos, um dos pilares centrais do seu percurso humano e profissional. No plano laboral, José Ávila esteve durante vários anos ligado aos CTT, Correios e Telecomunicações de Portugal, onde desempenhou funções de gestão nas ilhas de São Jorge e Terceira.
Em 1983, emigrou com a família para Milpitas, no estado da Califórnia, iniciando uma carreira de sucesso na Hewlett-Packard, uma das mais emblemáticas empresas tecnológicas norte-americanas, onde assumiu responsabilidades em diversas operações de relocalização. Após a reforma, em 2003, José e Ilda Ávila fixaram-se em Modesto, no condado de Stanislaus, adquirindo o jornal Tribuna Portuguesa (The Portuguese Tribune), publicação histórica e de referência da comunidade luso-americana de San José, cidade que constitui a maior concentração urbana portuguesa da Califórnia.
Com essa decisão, procuraram reforçar os laços com as comunidades portuguesas do Vale de San Joaquin, uma das regiões mais emblemáticas da presença açoriana nos Estados Unidos, e continuar a servir a vasta comunidade de língua portuguesa da costa oeste norte-americana. Duas décadas depois, em 2023, o casal regressou a San José, devolvendo a Tribuna Portuguesa ao seu berço de origem e reafirmando a missão fundamental do jornal: informar, fortalecer os laços comunitários e valorizar a identidade das comunidades luso-californianas.
Num contexto frequentemente marcado por dificuldades estruturais e pela escassez de apoios institucionais, os jornais da diáspora sobrevivem, muitas vezes, graças ao espírito de missão dos seus diretores, colaboradores, leitores e empresários mecenas. Ao longo das últimas décadas, inúmeros títulos históricos desapareceram perante crises económicas, transformações tecnológicas e limitações financeiras. Neste panorama particularmente exigente, a Tribuna Portuguesa assume um significado ainda mais relevante.
Jornal bilingue, publicado em português e inglês, a Tribuna Portuguesa é, há mais de duas décadas, o único jornal português em circulação regular na Costa Oeste dos Estados Unidos e o derradeiro bastião da imprensa escrita em língua portuguesa na Costa do Pacífico. Mais do que um simples órgão de comunicação social, representa um verdadeiro património cultural da diáspora portuguesa, funcionando como espaço de memória, identidade e ligação entre gerações.
Numa época em que vários meios de comunicação da diáspora portuguesa têm sucumbido, inclusive na América do Norte, o quinzenário dirigido por José Ávila constitui um notável exemplo de resistência cultural, dedicação cívica e serviço público comunitário. Através de uma informação de proximidade, o jornal constrói pontes entre comunidades dispersas, combate a distância e a saudade, fortalece a identidade cultural luso-americana e projeta Portugal, particularmente os Açores, na sociedade norte-americana.
O papel da comunidade portuguesa na Califórnia é profundamente relevante. Com mais de 300 mil pessoas de ascendência portuguesa, maioritariamente açoriana, esta comunidade tem dado um contributo significativo nos planos económico, agrícola, empresarial, político e cultural, preservando ao longo de gerações as suas tradições, festividades, língua e herança cultural. Neste contexto, a Tribuna Portuguesa tem sido, ao longo de quase meio século, um espaço incontornável da portugalidade e da açorianidade na Califórnia, registando as histórias, os desafios e as conquistas de sucessivas gerações de emigrantes portugueses na América.
O trabalho desenvolvido por José Ávila e pela Tribuna Portuguesa levou o Município de Angra do Heroísmo a distinguir o jornal, em 2021, com a Medalha de Mérito Municipal, Classe Cultural. Mais recentemente, em 2025, José Ávila foi homenageado pela Portuguese Fraternal Society of America (PFSA) com o Prémio de Serviço à Comunidade Portuguesa, pelo seu contributo na preservação e promoção da língua e cultura portuguesas na Califórnia.
Num tempo marcado pela globalização e pela fragmentação dos laços comunitários, figuras como José Ávila e instituições como a Tribuna Portuguesa demonstram que a diáspora portuguesa continua a ser uma extraordinária força cultural, humana e civilizacional, projetando diariamente o futuro da portugalidade no mundo.




