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OPINIÃO | Heranças Atlânticas: O Legado dos Imigrantes Portugueses na Califórnia, por Diniz Borges

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Há várias décadas, estava eu no começo do meu curso universitário, quando um velho professor de história, um americano de origem judaica com o qual aprendi muito, perguntou: “o seu último nome é Borges, então é português?” Após a resposta positiva ele adicionou: “vocês descobriram o mundo, mas não disseram a ninguém.” Ocorreu‑me esta já longínqua referência ao refletir sobre a semana do emigrante português na Califórnia, que acontecerá, entre 2 e 9 de março de 2024, pela quinquagésima-sétima, com esta nossa necessidade, diria mesmo, necessidade urgente, de nesta Califórnia, onde reside a nossa maior diáspora açoriana, dizermos que aqui estamos e que também temos contribuído, muito, se considerarmos a nossa percentagem populacional, para este mega estado da união americana.

Em 1967 o então governador da Califórnia Ronald Reagan, que mais tarde chegou, como se sabe a Presidente dos EUA, e que não era, em muitas políticas sociais, flor que se cheirasse,  proclamou a primeira semana de março como Portuguese Immigrant Week—a semana do imigrante português. Eram outros tempos! A década de 1960 foi, ao longo do século XX, a década de maior emigração dos Açores para a Califórnia. Beneficiando da era que intitulamos de pós Vulcão dos Capelinhos, do Azorean Refugee Act, e do Immigration and Nationality Act of 1965 particularmente a partir de 1966, época em que praticamente todas as semanas chegavam famílias das nossas ilhas a este estado. Implantavam‑se, como se sabe, em zonas onde já haviam outros emigrantes e açor‑descendentes, produto da emigração do final do século dezanove e princípio do século vinte. É que até ao discriminatório Immigration Restriction Act of 1921 (o qual foi reestruturado como o Immigration Act of 1924) vários jovens açorianos (como os meus avós maternos), muitos entrando pela famosa Elis Island, em Nova Iorque, tentavam a sua sorte em terras do Eldorado, construindo as nossas primeiras comunidades portuguesas deste estado, criando as nossas primeiras organizações, as nossas primeiras estruturas comunitárias, muitas das quais ainda hoje existem, sendo exemplo máximo: as irmandades do Espírito Santo.

Um século e meio depois de terem chegado alguns dos nossos pioneiros, pelo menos em números significativos, quer dos Açores e da Madeira, para o que o poeta Pedro da Silveira magistralmente descreveu como “Califórnias perdidas de abundância”, a quase 60 anos desde que o governador Reagan (1967), recebeu e ouviu um grupo de portugueses e luso‑descendentes, celebraremos, dentro de pouco mais de um mês, ainda mais uma vez, a Semana do Imigrante Português na Califórnia. Se é certo que a nossa emigração dos Açores para a Califórnia estancou há quatro décadas (pelo menos em números significativos), não é menos certo que ainda se notam a chegada de algumas famílias (poucas) que saem dos Açores (quase todos clandestinamente) para tentarem refazer as suas vidas em terras americanas. É que apesar de levar alguns estrangulamentos, particularmente por uma direita americana retrógrada e xenófoba, e uma esquerda europeia que gostosamente coloca todos os males do mundo no colo dos Estados Unidos, o sonho americano (mítico em muitos aspetos) ainda é um desejo além-fronteiras, e este país, apesar do cinismo, da bobagem, do espírito vil lançado pelos principais candidatos da direita à presidência americana, ainda é um país de oportunidades, um mosaico humano incrível, um lugar onde se luta, quotidianamente, por mais liberdades e mais oportunidades.  Felizmente, a Califórnia, mesmo com os seus problemas, tem sido um baluarte americano. E é tempo de dizermos, que também temos contribuído.  Citando de novo o poeta florentino:  Por essa terra que não era tua/ deste generoso o teu sangue. /  e deste-lhe, ó semente de mundos,/ os teus filhos.  

Em 2024, vivemos outros tempos nesta diáspora açoriana na Califórnia. Se é certo que nas nossas famílias (com algumas raras e heroicas exceções) já não se fala português em casa todos os dias; se é mais do que óbvio que as nossas coletividades comunitárias têm de se redescobrir e  de se redefinir; se é genuína a metamorfose, sobre a qual escrevo há mais de 30 anos, que decorre a passos largos, não é menos certo que refletindo e agindo, preservando e registando as nossas histórias e criando as nossas narrativas, permitir‑nos‑á, com imaginação e trabalho, estarmos na Califórnia do século vinte um como um grupo que contribuiu e contribui, que participou e participa na vida política, social, económica e cultural deste estado plantado à beira do pacífico.  Não tenhamos ilusões, ainda temos muitos passos a dar e só o faremos, se formos mais inclusivos, mais engenhosos, mais participativos, mais empenhados no mundo que nos rodeia e mais abertos às semelhanças que temos com os outros grupos étnicos, que compõem o multiculturalismo californiano, particularmente com os hispânicos. As nossas vivências culturais, a nossa participação cívica, a nossa presença no mundo empresarial, tecnológico e académico só fará sentido, só terá frutos, se como diáspora, soubemos, de uma vez por todas, quebramos barreiras, destruirmos muros, construirmos pontes e criarmos oportunidades.

Em 2016, quarenta e nove anos depois da declaração da Semana do Imigrante Português na Califórnia, graças ao trabalho e à visão do então Cônsul-Geral de Portugal em São Francisco, Nuno Mathias, registaram-se uma amálgama de eventos, liderados pelas duas grandes sociedades fraternais.  Desde então, e tal como tinha acontecido no passado, a Semana do Imigrante Português na Califórnia tem tido os seus vales e montes, mais vales do que montes, se quisermos ser honestos.  A pouco mais de uma mês, mais uma destas semanas, há que refletirmos, nas nossas casas e nas nossas organizações, sobre esta oportunidade única de sairmos das nossas zonas de conforto e levarmos esta efeméride a outros patamares. 

Primeiro, e acima de tudo, é imperativo que nos comprometemos com esta semana e com o seu nome, ou seja: apesar da palavra imigrante ter, no atual explosivo clima político nacional (ainda mais uma vez pela exploração, a vilificação e o nativismo da direita americana), não podemos, nem devemos fugir de quem somos: imigrantes, ou filhos, netos ou bisnetos de imigrantes. Não devemos sucumbir às perniciosas manifestações de políticos oportunistas guiados pelo ódio e pelo pior que existe no espírito humano. Abracemos a palavra imigrante pelo positivismo que ela possui e o valor que os imigrantes de ontem, e os de hoje, têm para os Estados Unidos. 

Segundo, incluímos nas nossas celebrações o mainstream californiano. Que possamos trazer à nossa mesa, outros grupos étnicos, os nossos vizinhos e amigos, de outras raças, outros credos, outras culturas. Que cada associação de cariz português em terras da Califórnia se comprometa a celebrar esta semana com um evento que seja inclusivo e partilhado com o resto da sociedade. Que convidemos a miríade de culturas, línguas, vivências e experiências que compõem este colossal estado a participarem conosco nesta nossa semana.

Terceiro, que utilizemos esta semana para uma reflexão comunitária, até porque este ano estaremos em plena época quaresmal, e como o nosso calendário social segue muito o calendário religioso, que usemos esta semana em tempo de quaresma, para pensarmos a diáspora, e para celebrarmos a nossa identidade, com as artes, com a nossa história, com pequenos excertos da nossa presença em terras californianas.  Não podemos, nem devemos ficar por um mero ato simbólico para a fotografia sorridente, nas redes sociais.  Esta é a semana para se usar as novas tecnologias, as novas formas de se chegar a todas as gerações, com pequenos excertos de quem somos, o que temos vindo a fazer e para onde queremos ir.  Uma semana de pedagogia coletiva dentro da diáspora espalhada por cerca de 500 cidades da Califórnia, e de celebração verdadeiramente estadual, com os nossos vizinhos e amigos de outras etnias, outras culturas, outras religiões, outras tradições, que infelizmente, apesar de cá estarmos desde que o estado é parte da união americana, pouco ou nada sabem sobre quem somos.  Temos ainda um mês para nos prepararmos, se quisermos comemorar esta semana com a dignidade que a mesma merece.  Não nos deixemos distrair por mensagens apócrifas ou pela tentação do elogio fingido.       

Caminhemos para a Semana do Imigrante Português na Califórnia, entre os dias 2 e 9 de março, com a determinação e o compromisso de abolirmos, para sempre, a frase do meu antigo professor de história, ou seja: vamos dizer ao resto dos nossos concidadãos californianos que aqui estamos, que aqui vivemos, que aqui trabalhamos e contribuímos para o sucesso deste estado.  E trabalhemos para que esta celebração tenha eco em Portugal, particularmente nos Açores, de onde vieram e onde têm raízes mais de 90% dos cerca de 350 mil californianos que se identificam como portugueses.   

Celebremos nas nossas casas, nas nossas famílias e nas nossas organizações.  Celebremos esta semana em pleno mundo californiano partilhando os nossos valores e comungando do espírito multicultural e inclusivo que nos enobrece como diáspora e nos torna verdadeiros participantes do fascinante mundo californiano. 

Mauricio De Jesus
Maurício de Jesus é o Diretor de Programação da Rádio Ilhéu, sediada na Ilha de São Jorge. É também autor da rubrica 'Cronicas da Ilha e de Um Ilhéu' que é emitida em rádios locais, regionais e da diáspora desde 2015.