DIÁSPORA

OPINIÃO | A Brisa das Rosas: aventuras, culturas e identidades no livro de Esmeralda Cabral, por Diniz Borges

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A melhor escrita de viagem descreve
o que está a acontecer quando
ninguém está a olhar.
Tom Miller- escritor americano

Li algures que uma viagem é sempre mais do que o simples ato de viajar, é uma jornada interior, uma descoberta, ou uma série de descobertas sobre os lugares e as pessoas com quem contactamos, é certo, mas acima de tudo, um achamento sobre quem somos.  Esmeralda Cabral, no seu livro sobre uma prolongada estadia em Portugal, traz-nos esse descobrimento, assim como uma série de redescobrimentos, não só para a autora, mas para todos os leitores, com uma satisfação redobrada para quem conhece os meandros dos dois mundos, ou dos vários mundos, que constituem a emigração e a nossa Diáspora no continente norte-americano.   Mais do que um livro de uma viagem, uma estadia, em terras portuguesas, este é um livro espesso de ponderações sobre lugares, pessoas, vivências e esperanças. É que como escreveu Henry Miller: o destino de uma pessoa nunca é um lugar, mas sim uma nova forma de ver as coisas. 

Em How to Clean a Fish and other Adventures in Portugal (Como Limpar um Peixe e outras Aventuras em Portugal) penetra-se uma viagem ao contrário para um outro Portugal, muito diferente dos Açores onde a autora nasceu e passou a sua infância.  É uma viagem para um Portugal onde o sotaque e as linguagens são diferentes, e daí o fascínio desta leitura, que nos traz uma tonalidade de nostalgia, pintada com cores, sons, olfatos e sabores, ora conhecidos, ora misteriosos.   Ao longo de 301 páginas vive-se, com a autora, uma prolongada temporada em Portugal, mais concretamente na Costa da Caparica, e na zona metropolitana de Lisboa, mas também vivemos os seus primeiros dias de emigração dos Açores para Alberta, no Canadá.  As nuances de uma família partida e repartida, a integração, as ligações à terra de origem, as tradições e uma certa saudade, que tal como nos diz o cancioneiro popular açoriano: nem sempre chora.  O relato da estadia de Esmeralda Cabral em terras da metrópole, como se dizia nos anos em que a autora emigrou em criança, é muito mais genuíno e muito mais aliciante pela justaposição que a autora magistralmente interlaça entre as vivências do seu quotidiano em Portugal, no Canadá, e as memórias da família e do passado.  Uma mescla que torna esta escrita mais rica, mais genuína.  Tal como a própria autora explica: “Sou filha de pais portugueses, sou mãe de filhos canadianos. Sou o elo entre os dois lugares e as duas culturas e, por isso, sou simultaneamente portuguesa e canadiana. De certa forma, parece tão simples – é o que sentimos que somos.”   

O livro desenrola-se, como já o referenciei, a partir de uma estadia em Portugal, provocada por uma sabática, que o marido, canadiano, professor e investigador universitário, fará no nosso país.  Com os filhos e o seu cão (também português—Portuguese Water Dog) vivem uma prolongada temporada em terras portuguesas, dando-lhe uma outra perspetiva, outras oportunidades de olhar para o fado; o 25 de abril; os bairros populares da capital portuguesa, como Alfama; o futebol; a célebre burocracia portuguesa; as aldeias e o norte do país; a época das sardinhas; o tempo e os mercados com os produtos da sua meninice.  Vivendo esta amalgama de experiências, testemunhamos o que o autor indiano Jawaharlal Nehru escreveu: “Vivemos num mundo maravilhoso, cheio de beleza, encanto e aventura. Não há fim para as aventuras que podemos ter se as procurarmos com os olhos abertos.” Na realidade, os olhos abertos, ou melhor, a visão alargada pela sua experiência de emigração e a dualidade das suas vivências, como escreve num dos seus textos, dão-nos uma escrita voluptuosa, patenteada por sentimentos genuínos, descrevendo situações e eventos que nos enchem a alma e que nos alimentam a esperança na humanidade, porque como nos disse a poeta americana Maya Angelou: “Talvez as viagens não possam evitar o fanatismo, mas ao demonstrar que todos os povos choram, riem, comem, se preocupam e morrem, podem introduzir a ideia de que se tentarmos compreender-nos uns aos outros, podemos até tornar-nos amigos.”

O livro está dividido em três das quatro estações do ano: inverno, primavera e verão, e tal como escreveu a canadiana Trish Bowering no blogue Trishtalksbooks.com: “adorei ver como a sua imersão na cultura portuguesa e a sua autodescoberta evoluíram com a mudança das estações.”  Isso!  Esmeralda Cabral soube criar uma escrita diarista e de viagens, que é, ao mesmo tempo, uma peça literária intrínseca, englobando vários mundos, vários conceitos, várias perspetivas e várias gerações.  Numa linguagem direta, e simultaneamente rica em subtilezas, lá estão uma amalgama de situações que nos transportam não só a um lugar, mas acima de tudo a uma forma de vida, vista por olhos de quem ora é portuguesa, ora é canadiana, marcada por um sentido de identidade dupla e por uma forte componente de perda, exemplificada num belo texto em que nos fala dos bens materiais perdidos pelos pais quando emigraram de São Miguel, nos Açores, para província de Alberta, no Canadá.  A dualidade que qualquer criança que emigrou (também o fiz com 10 anos) de uma cultura para outra, de uma língua para outra, quando se deixa o que se é familiar, quando os pais se sentem completamente estrangeiros e daí ultra protetores dos filhos, quando ocorrem situações por vezes inexplicáveis e sentimos muito cedo os pesos do mundo, que nos marcam e fazem parte de quem somos e como somos, que a própria autora magistralmente questiona: “Será que herdei o medo da perda dos meus pais imigrantes ou foram apenas as minhas próprias perdas que me tornaram no que sou?  Poderá ser uma combinação de ambos?”

            Se como escreveu o ficcionista americano Jonathan Safran Foer: “a gastronomia é cultura, hábito, desejo e identidade,” este livro é um manancial identitário e cultural.  Desde as visitas ao mercado, aos restaurantes, às receitas (incluídas no fim do livro), aos momentos de conversa, de fraternidade e solidariedade em torno da gastronomia, como nos explica Ron Robinson, crítico do jornal The Free Press de Winnipeg, numa excelente recensão: “A compra de alimentos num mercado faz sobressair a timidez de Cabral – que marisco é este? Como é que se cozinha? Qual é a etiqueta que toda a gente parece saber? À medida que o tempo passa, as mulheres nas bancas do mercado vão-na tomando a seu cargo, explicando, persuadindo, dando dicas de cozinha, uma demonstração de filetagem e ervas aromáticas gratuitas.” Uma parte portuguesa que por vezes olvidamos no estrangeiro.  O valor da gastronomia na cultura portuguesa é realçado, e ainda bem, neste magnífico livro, ou como escreveu Onésimo Almeida na contracapa: “estas páginas são tão deliciosas como a gastronomia portuguesa.”

            Nascida nos Açores, cresceu em Alberta e agora vive em Vancouver, Esmeralda Cabral pertence a uma geração de criadores literários que conhecem os vários mundos que constituem o nosso mundo além arquipélago.  Ela, como muitos outros da sua geração com experiências análogas, é o produto do multiculturalismo canadiano, mas extremamente enraizada nos valores culturais das suas ilhas de origem.  Daí que este é mais do que um livro de viagens, um diário de uma jornada. Este é um livro de emoções, culturas e identidades. Há que ser lido por cada luso-canadiano e luso-americano.  Valia a pena ser traduzido e publicado em Portugal.    Se como escreveu algures Marcel Proust que: “a verdadeira viagem de descoberta não consiste em procurar novas paisagens, mas em ter um novo olhar”, ficámos todos mais enriquecidos com os olhares e as reflexões expostas neste belo livro, extremamente bem escrito e repleto de humor.  Só uma canadiana com raízes nos Açores poderia escrever este livro.  Ainda bem que foi Esmeralda Cabral a escrevê-lo. 

Diniz Borges, Califórnia

*de Natália Correia, cujo centenário comemoramos em 2023.