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OPINIÃO | Mudanças, Populismos e o Xadrez Político Americano: Eleições Presidenciais de 2024 nos EUA, por Diniz Borges

Diniz (Dennis) Borges Portuguese Beyond Borders Institute-Director
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Um vício típico da política americana 
é evitar dizer algo real sobre questões reais.
Theodore Roosevelt, 26º Presidente dos EUA

As eleições de novembro de 2024 nos Estados Unidos da América situam-se num momento crucial na vida política do país, marcadas por um conjunto único de desafios que definirão a democracia americana. O rescaldo das eleições de 2020 e os acontecimentos subsequentes deixaram uma marca indelével no processo eleitoral estadunidense, influenciando a dinâmica das próximas presidenciais, com repercussões em todas as esferas e latitudes da democracia americana. Um aspeto significativo que molda o estado das eleições de 2024 é o debate em curso sobre os direitos de voto e a integridade eleitoral. Vários estados implementaram ou propuseram alterações às leis eleitorais, suscitando controvérsia e levantando preocupações sobre a acessibilidade e a justiça do sistema eleitoral. O outro aspeto, esse contendo muito mais cobertura pela comunicação social americana e mundial é o contínuo debate sobre Donald Trump e o perigo que o mesmo continua a trazer à democracia americana, quer pelas suas promessas de autoritarismo, quer pela trivialização que dá ao processo democrático, quer pelo peso desmedido que ainda tem no Partido Republicano.  Na população em geral, ainda há demasiados cidadãos que pensam que o voto, em especial para presidente, é algo que se pode dar a uma pessoa de quem se gosta ou se tolera, em vez de ser dado ao candidato e ao partido com mais probabilidades de promover as políticas necessárias para o progresso dos cidadãos e da sociedade.  As eleições americanas, pela sua perplexidade, pelo papel dos Estados Unidos no mundo, pela diversidade da sua população, merecem um trabalho contínuo e uma reflexão profunda.  Merecem que se dê mais espaço à realidade do país e menos ao barulho nefasto do antigo presidente que a 6 de janeiro de 2021 tentou derrubar a democracia americana.    

Um fator fundamental que contribui para a complexidade das eleições de 2024 em terras americanas, e diria a nível mundial, é a evolução do papel da tecnologia no processo eleitoral. Com a crescente prevalência dos meios de comunicação social e das plataformas digitais, a divulgação de informações, a desinformação e a influência das redes sociais tornaram-se elementos fundamentais na formação da opinião pública. O desafio para os candidatos não consiste apenas em formular políticas eficazes, mas também em navegar na intrincada teia de narrativas que podem ter um impacto significativo na perceção dos eleitores.  Os denominados órgãos tradicionais da comunicação social também têm uma tonelada de culpas no cartório.  Mais do que colocar dois “especialistas” cada um a representar o seu partido em debate constante, demasiadas vezes repetindo clichés e pontos de vista meramente partidários, a comunicação-social tradicional, tem a obrigação de clarificar com factos, e nunca com “factos alternativos,” as posições de cada partido (nos EUA, infelizmente apenas dois) no que concerne a políticas económicas, sociais, raciais e educativas, entre outras.   Como escreveu recentemente Charles Blow, cronista do New York Times: “há demasiados cidadãos que pensam que o voto deve ser negado a um candidato mais preferível como castigo por não satisfazer todos os desejos da sua lista – que optar por não votar é um ato sensato de protesto político e não uma cedência de controlo a outros. A abstinência não dá poder; neutraliza.”  Em democracia a pedagogia é um ato constante.  Em democracia o denominado quarto poder não pode pactuar com o populismo, venha da direita ou da esquerda. As eleições de 2024 exigirão estratégias robustas para navegar e neutralizar o impacto da desinformação digital, porém, não temos, por enquanto, nenhuma indicação que, quer os partidos, quer a comunicação social, tratarão este dilema com alguma seriedade.  

  A evolução do panorama demográfico em terras norte-americanas constitui um desafio para os candidatos que procuram ligar-se a um eleitorado cada vez mais diversificado, o que não é o caso de Donald Trump, que diariamente lavra o terreno, infelizmente ainda fértil, da intolerância, do racismo e da xenofobia, particularmente em estados e zonas mais reacionárias. Questões como a justiça racial, as alterações climáticas e a desigualdade económica deveriam ter proeminência, exigindo-se que os candidatos abordassem um vasto espetro de preocupações que fazem parte do quotidiano americano.  Se na realidade há alguns órgãos da comunicação social, particularmente a imprensa, como o New York Times e o Washington Post, entre outros, que ainda investem em reportagens sobre estes e outros dilemas, infelizmente, as televisões e as rádios (as estações talk radio) continuam sendo alcovas que ecoam os mesmos insultos e os mesmos populismos, deixando cada qual no seu mundo fictício, onde é mais fácil culpar-se os novos emigrantes, as vozes progressistas e abdicar da ciência e do conhecimento.  Com a nação americana a tornar-se mais diversificada, e as prioridades de vários grupos demográficos em constante evolução, os candidatos só se adaptarão com uma comunicação social ativa que nos mostre o eleitorado que somos e que reflete uma América em constante mudança.   

Uma das alterações demográficas mais significativas é o crescimento contínuo das populações minoritárias. A crescente influência das comunidades hispânicas, afro-americanas, asiático-americanas e outras, está a transformar a composição do eleitorado.  A ascensão das gerações Millennial e Gen Z como um bloco eleitoral substancial é outra tendência demográfica para a qual quer os partidos, quer os analistas têm de enfrentar. Estes eleitores mais jovens têm perspetivas distintas sobre questões como as alterações climáticas, a justiça social e a dívida dos empréstimos estudantis. Há pouco trabalho, para além da hipocrisia política, com narrativas concretas que repercutem os valores e as preocupações destas gerações, reconhecendo o poder que detêm na definição do resultado eleitoral.

As modificações na dinâmica dos géneros também desempenham um papel na evolução do panorama demográfico. A mobilização e o envolvimento contínuos das mulheres na política exigem a atenção dos candidatos e dos partidos que procuram assegurar um apoio alargado.   É inacreditável como ainda há mulheres na América a apoiarem o misógino Donald Trump, e como os seus principais rivais no Partido Republicano não o enfrentam diretamente. Abordar questões como a igualdade de género, os direitos reprodutivos e a equidade no local de trabalho são assuntos pertinentes que estão, infelizmente, nas margens das campanhas, pelo menos neste espaço de eleições primárias.   

As alterações geográficas contribuem para a evolução demográfica, com o crescimento e a redistribuição da população a afetar a paisagem política dos Estados Unidos. Os estados do chamado “Sun Belt,” como o Texas, o Arizona, o Novo México e a Florida, estão a registar um crescimento populacional significativo, o que poderá alterar a sua importância política.  No Texas e na Florida, os movimentos nativistas, com adeptos de quem não nasceu nos Estados Unidos, ou os seus pais foram emigrantes, como acontece com a comunidade de origem portuguesa, estão em pleno crescimento e o atrupido em torno de clichés e falsidades tornam-nos em terreno fértil para os grupos mais reacionários e para alimentar o perigosíssimo crescimento de movimentos da extrema direita americana, que infelizmente foram trazidos para o mainstream americano por Donald Trump, com a bênção do seu partido e a letargia dos democratas.   

O envelhecimento da população apresenta oportunidades e desafios para as eleições deste ano. Os eleitores mais idosos tendem a ter taxas de participação eleitoral mais elevadas, o que os torna um grupo demográfico crucial. As questões relacionadas com os cuidados de saúde, a segurança social e a reforma serão preocupações centrais para esta faixa etária.  Mais de 90% dos americanos com mais de 70 anos recebem a reforma do serviço nacional Social Security, que os republicanos há anos querem abolir. Mais de 42% dos americanos com mais de 65 anos, o cheque da reforma nacional é a sua única fonte de vencimento mensal.  Porém, persiste-se em varrer-se estes assuntos para debaixo do tapete decorativo, enquanto se trilha pela via do insulto mútuo.     

O impacto do nível de instrução no comportamento eleitoral é também um fator demográfico digno de se notar. Os eleitores com formação académica, em especial nas zonas suburbanas, tornaram-se um fator demográfico basilar. Nas zonas rurais, o nível de instrução tem tido uma mudança essencial, particularmente nas últimas duas décadas.  A classe política continua a enquadrar este eleitorado dentro de moldes completamente ultrapassados.   As divisões existentes há 20 anos, estão extremamente diferentes.  A versão das duas Américas, metáfora utilizada no começo do século XXI, está superada.  Hoje, na realidade temos várias Américas, com a urgência de utilizar essa realidade para nos unirmos numa só América, composta por um mosaico humano que é cada vez mais uma realidade em todo o mundo ocidental.  

Há outras realidades que mudaram o mundo e mudaram a política americana.  A pandemia (COVID-19), por exemplo, acentuou ainda mais a importância da saúde pública e da política de cuidados de saúde nas considerações eleitorais. Há cada vez mais eleitores que examinam minuciosamente as respostas dos candidatos às crises de saúde pública e as propostas de reforma dos cuidados de saúde, que no país mais avançado do mundo ainda não são para todos. Navegar pelas complexidades da recuperação da pandemia, e da preparação para o futuro, deveria ser fundamental para ganhar-se a confiança dos eleitores em 2024, não estivessem os mesmos entretidos com as redes sociais e o efeito de circo e caos constante que Donald Trump, com o apoio da comunicação social, a bênção dos republicanos e a timidez dos democratas, traz-nos todos os dias.   

As eleições presidenciais de 2024 nos Estados Unidos desenrolar-se-ão num contexto de mudanças demográficas significativas. Os candidatos responsáveis, os partidos, e a comunicação social devem reconhecer e adaptarem-se a estas mudanças para construir-se um fórum onde se possa ouvir e debater estas diversas vozes e as verdadeiras preocupações do eleitorado. Compreender a dinâmica matizada de um panorama demográfico em mudança será essencial para o sucesso, não só eleitoral, mas sobretudo de melhoramento de vida para milhões de americanos.  O tecido em evolução da sociedade americana merece muito mais do que o cacarejo constante que tem caracterizado esta campanha política nos Estados Unidos. 

Califórnia, Janeiro de 2024

Mauricio De Jesus
Maurício de Jesus é o Diretor de Programação da Rádio Ilhéu, sediada na Ilha de São Jorge. É também autor da rubrica 'Cronicas da Ilha e de Um Ilhéu' que é emitida em rádios locais, regionais e da diáspora desde 2015.