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DIÁSPORA | Ventos do Atlântico – Ondas do Pacífico: Diálogos Transoceânicos sobre Identidade e Cultura, por Diniz Borges

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Talvez estejamos cansados e com falta de imaginação no que concerne ao diálogo sobre os Açores e a sua diáspora, disse-me ainda há dias um amigo meu, que há quatro décadas acompanha este nosso processo diaspórico.  Talvez tenha razão.  É que na realidade andámos a gastar demasiado tempo com assuntos importantes e que todos nós já sabemos as respostas.    A diáspora tem potencialidade, muita potencialidade, mas não pode ser vista apenas como um lugar onde se vai buscar investimentos, nem os Açores, para a diáspora um lugar para se ver uma festa e tomar um copo.  O nosso relacionamento Açores-Diáspora-Açores, terá de ser isso mesmo, um ciclo destas componentes em que a diáspora só o é, porque tem a ligação aos Açores e os Açores só terão diáspora se acreditarem na potencialidade das novas gerações, cuja maioria, como já se disse, repetidamente, não está numa dita “comunidade açoriana”, as quais já não são as mesmas, em todos os sentidos, que o foram há três ou quatro décadas atrás.  Já foi dito e redito, escrito e reescrito, que ou partimos para novos paradigmas, ou será melhor, para ambas as partes, ou melhor as várias partes de um único universo “the Azorean Spirit” esquecermo-nos dos mesmos debates, as mesmas insistências, as mesmas repetições, ou pior ainda inventar-se soluções que já se tinham preconizado há uns tempinhos. 

Um dos acontecimentos que marcou a diáspora açoriana na Califórnia entre 1990 e 2002 foi o simpósio Filamentos da Herança Atlântica, que trouxe uma amálgama de homens e mulheres ligados às artes, desde a literatura às artes plásticas, desde a música (com qualidade, entenda-se, mas de todos os géneros) à história.   Em 2021, quase duas décadas mais tarde, o simpósio voltou, agora nas novas plataformas e aberto a todos que têm acesso às redes sociais, ou a tecnologia, estando na Zoom e outros sistemas, incluindo um sistema privado, para os nossos alunos na universidade.  É que acima de tudo, devemos democratizar a cultura e as discussões sobre a diáspora não podem, nem devem ficar, circunscritas a um grupo de “escolhidos.”  

Porque parece que ou somos de memória curta, ou então porque não queremos enfrentar a realidade, nua e crua, como ela está aos nossos olhos, publico aqui os resultados do simpósio de 2021, no qual foram ouvidos mais de 80 intervenientes, durante 17 sessões, com mais de 200 horas de opiniões, estudos e ideias.  Continuamos a acreditar que esta é uma síntese importante, se queremos ir além do que já sabemos e se estamos a sério, mas mesmo a sério, sobre as pontes que ainda precisamos construir para irmos além do que pode dar nas vistas, mas não tem qualquer impacto nas futuras gerações.  Eis o que ainda hoje, três anos mais tarde, ainda precisamos fazer.    

  1. Erigir um plano que utilize as novas plataformas de comunicação para aproximar os Açores e a Diáspora, assim como a Diáspora entre si, com paineis, apresentações, debates e conferências, em português e em inglês, sobre a identidade açoriana e uma ligação constante com o arquipélago.
  2. Estabelecer protocolos vivos e ativos entre o movimento associativo da diáspora, os centros de estudos portugueses em universidades americanas, e entidades governamentais, regionais, municipais e a sociedade civil nos Açores para que os novos talentos nas artes contemporâneas dos Açores, cheguem às novas gerações de açor-descendentes e ao mundo americano. Sugere-se que as entidades regionais estimulem a convenção de protocolos e partilha de responsabilidades do movimento associativo para que haja menos projetos isolados e de curto alcance, e mais projetos comuns e de maior alcance.
  3.  Promover, com regularidade, a imagem dos novos Açores e do quotidiano contemporâneo junto das novas gerações, com uma maior abertura nas televisões dos Açores para a legendagem em inglês de programas sobre o arquipélago.  A língua inglesa não pode ser barreira na aproximação das várias gerações de açor-descendentes ao arquipélago. 
  4. Gerar pacotes didáticos digitais com conteúdos açorianos em português para os cursos de língua e cultura portuguesas nas escolas do ensino oficial americano e escolas do nosso movimento associativo, assim como em inglês para serem ministrados nas semanas multiculturais que normalmente as escolas americanas promovem em cada ano letivo.  A presença dos Açores, além da geração emigrante, passa pelo mundo do ensino.   
  5. Encetar uma nova aproximação entre o movimento associativa da diáspora, nos vários estados da união americana, para se chegar às novas gerações através do mainstream americano, utilizando as novas tecnologias, e formatos que permitam uma maior presença da açorianidade no mundo onde estão totalmente integrados.  
  6. Instituir mais intercâmbios no mundo do ensino, quer a nível de escolas do ensino secundário, quer a nível universitário, utilizando as geminações existentes entre as cidades e vilas açorianas com congéneres nos Estados Unidos, para que haja contacto constantes a nível do ensino secundário e maiores oportunidades no ensino universitário, incluindo aulas que se interligam pelas novas tecnologias e contendo as múltiplas disciplinas e áreas do conhecimento e pesquisa, importantes para a Região, incluindo uma ainda maior participação de jovens açor-descendentes nos programas instituídos pela FLAD, incluindo o SiPN.  
  7. Produzir mais oportunidades de investimentos para pequenos e médios investidores, como por exemplo uma Associação de Investimento que possa canalizar para os Açores fundos de famílias que através de pequenos e médios investimentos, querem contribuir para a região com segurança.  
  8. Criar uma aliança de escritores e poetas da diáspora açoriana para promover as obras literárias das novas gerações no arquipélago e haver maior ligação entre a literatura açoriana e açor-americana.
  9. Sustentar e aumentar a tradução de obras literárias com a temática açoriana para a língua inglesa, incluindo uma maior divulgação dessas traduções na diáspora e no mainstream americano.
  10. Desburocratizar e incentivar o investimento que famílias açor-americanas querem fazer com a aquisição de casa ou apartamento, como segunda residência nos Açores.  
  11. Melhorar o acesso à Região, analisar e solucionar o eterno problema dos transportes, estudando a possibilidade de uma tarefa única para os emigrantes, com desconto para os mais novos, assim como criar mecanismos que ofereçam a quem chegar ao arquipélago mais informações sobre os museus, os centros de arte, os concertos, o teatro e a música contemporânea.  
  12. Responsabilizar os açor-descendentes eleitos para uma maior defesa das comunidades e dos assuntos e políticas que afetam a comunidade e os Açores, desde o ensino da língua portuguesa nas escolas públicas americanas à criação de parcerias público-privadas que deem mais oportunidades aos jovens açorianos e criem uma maior fusão entre os dois lados do atlântico.  Simultaneamente, solicitar que os responsáveis governamentais açorianos insistam num novo paradigma que vá além do subsídio à cultura popular, a qual é sustentável na diáspora, e invistam na presença dos novos Açores no mundo americano, onde estão inseridas as novas gerações.   O acompanhamento da geração emigrante pode e deve ser acompanhado, enquanto se criam novos padrões para as primeiras, segundas, terceiras e sucessivas gerações.   
  13. Constituir espaços na comunicação social dos Açores e da Diáspora para novos intercâmbios que vão além da esporádica notícia sobre as comunidades nos Açores e o mercado da saudade na diáspora, incluindo a abolição de estereótipos que ainda existem em ambos os lados do “Rio Atlântico.”   
  14.  Fortalecer ações para o movimento associativo da diáspora estar mais consciente da sua própria comunidade, indo além do emigrante, olhando para as várias gerações de açor-descendentes e criando espaços para os congregar com iniciativas que englobam a genealogia, a gastronomia, as artes contemporâneas, a histórias dos Açores e a história das comunidades no mundo americano, assim como as vivências do arquipélago de hoje.
  15.  Constituir um programa de mentores, utilizando o “know-how” dos açor-descendentes em várias áreas do conhecimento para apoiarem jovens açorianos que queiram entrar em carreiras nesses mais variados campos em que os açor-descendentes nos Estados Unidos têm tido proeminência.
  16. Fomentar, no sector turístico dos Açores, ações inovadoras para que os açor-descendentes tenham oportunidade de participar na vida açoriana, com experiências que abranjam a invocação que faz parte do quotidiano açoriano no século XXI. 
  17. Incrementar novas áreas de cooperação e divulgação da criatividade açoriana nas novas gerações, com atividades concretas e sistemáticas que incluam a divulgação dos objetivos e respetivas quotas de patrocínio das entidades regionais para projetos específicos que abranjam as novas gerações. Constituindo ainda mais áreas de cooperação entre a FLAD e projetos de índole açoriana nos EUA.
  18. Prosseguir os esforços de se criar nos Açores, em várias vertentes, um maior conhecimento da história da nossa emigração, a qual é uma parte importante da história dos Açores.   

A partir destas conclusões, que já têm três anos, há uma amálgama de iniciativas que se podem e devem concretizar, se na realidade estivemos interessados em trabalhar para o relacionamento Açores-Diáspora-Açores.  Dando uma roupagem nova, não significa solucionar os desafios que temos na diáspora açoriana em terras do continente norte-americano.  Apontando problemas sem soluções e alimentando os vícios do passado para um momento de glória pessoal não nos ajuda minimamente.  Vamos arregaçar as mangas. Vamos trabalhar. 

Mauricio De Jesus
Maurício de Jesus é o Diretor de Programação da Rádio Ilhéu, sediada na Ilha de São Jorge. É também autor da rubrica 'Cronicas da Ilha e de Um Ilhéu' que é emitida em rádios locais, regionais e da diáspora desde 2015.