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OPINIÃO | A Açorianidade nas Novas Gerações: O Sebastianismo, a Diáspora e a escrita dos açor-descendentes, por Diniz Borges

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Os Açores, como a Irlanda, são um 
lugar onde se cresce para sair.

in Fado and Other Stories de katherine Vaz

A escritora luso-americana Katherine Vaz tem publicado vários trabalhos relacionados com a terra dos seus antepassados em terras americanas.  De tudo o que Katherine Vaz tem escrito, começando por Saudade, o romance que é salpicado com as ilhas dos Açores, o conto My Hunt for King Sebastião é a narrativa que explora diretamente as vivências portuguesas em terras estadunidenses, as ambiguidades e os preconceitos, sobretudo as descobertas que por vezes a segunda, e sucessivas gerações têm de fazer para construírem a sua própria identidade.

Este conto narra a história de Dean, protagonista nascido nos Estados Unidos, filho de pai português e mãe californiana, de ascendência italiana e alemã.  Um produto do melting pot e de um emigrante açoriano, que como tantos outros, de um passado não muito longínquo, optavam por pouco ou nada falar das suas ilhas. Foi assim que Dean cresceu em terra de ninguém e sem qualquer conhecimento sobre as suas raízes açorianas.  Aliás, o protagonista, confessa sem complexos, que pouco ou nada conhece sobre o passado do pai:

Não conhecia o meu pai assim tão bem, para além do básico.  Ela tinha vindo para este país com dezoito anos da ilha Terceira, nos Açores; durante toda a minha vida a única memória que havia compartilhado comigo era que os ventos que vinham do mar tinham-no levado ainda muito novo a decidir que dedicar-se-ia a assuntos do ar, do intelectual e da verdade, que para ele isso traduzira-se no estudo de direito. Era assim que eu via o meu pai como imigrante—claro e  indistinto, mas ardendo, ardendo… (tradução livre)

Esta visão do pai que para ele veio de uma terra exótica, mas pobre, é algo com que muitos açorianos de segunda e terceira gerações se podem identificar.  Para vários filhos, netos e bisnetos de emigrantes açorianos em terras da Califórnia, os Açores, apesar das novas tecnologias, ainda são um lugar extremamente longe da vista e por vezes do coração.  Os seus antepassados pouco ou nada lhes transmitiram sobre as suas vivências.  O pai de Dean, não é uma exceção.  É o paradigma de muitos emigrantes açorianos, especialmente nas primeiras décadas do século vinte, que ao deixarem a sua terra, deixaram morrer o seu passado.  Para Dean, a vida do pai até aos dezoito anos, idade com que emigrara para os States não tem história.  Foram múltiplos os açorianos que por razões várias, optaram pelo esquecimento, atirando-se a uma assimilação que era desejada, para fugir à discriminação e a xenofobia, que desde sempre marcou a terra dos emigrantes.  Na realidade, optavam por uma inserção a todos os custos.  Daí que ainda hoje, constatamos os imensos descendentes de açorianos, nos mais diversos pontos da Califórnia, com nomes como Perry de Pereira, Marshal de Machado, Rose de Rosa, Roche de Rocha, Rodgers de Rodrigues, etc. É que o desconhecimento deste protagonista pelo passado do pai é, quer admitamos quer não (no seio das nossas comunidades mais antigos e agora um pouco por todo este estado do Pacífico) mais regra do que exceção.

Como também não é insólito o olhar folclórico que este filho de emigrante tem acerca das vivências das comunidades portuguesas na Califórnia.  Para Dean, entenda-se como representante de várias gerações de luso-descendentes, as referências culturais da emigração açoriana para este estado resumem-se às Festas do Espírito Santo, e estas um tanto ao quanto degeneradas.  As tais festas do Espírito Santo que o escritor açoriano Álamo Oliveira habilmente descreveu como “Sopas do Espírito Santo com Coca-Cola” e onde as raparigas que recusem “a honra de serem rainhas”, tal como nos diz o protagonista do conto “poderão ser castigadas com a morte.” 

Esta visão simplista dos festejos em honra do Espírito Santo na Califórnia é partilhada por muitos filhos e netos dos emigrantes.  Para além da lenda das rosas da Rainha Santa, a vasta maioria dos descendentes de açorianos na Califórnia, pouco ou nada conhece sobre a história destes festejos atlânticos.  Nos cursos de língua portuguesa que tenho dado a nível universitário, onde há sempre a apresentação de um projeto cultural, o Espírito Santo ou, simplesmente as Festas, como são popularmente conhecidas, é tema preferido.  Sem menosprezar o trabalho dos alunos, verifica-se que há a necessidade de se proceder a um exercício mais aprofundado sobre estes festejos e que esse artifício seja passado aos mais jovens.  As segundas, terceiras e sucessivas gerações pouco ou nada sabem sobre as raízes históricas destes festejos.  Talvez como primeiro passo fosse bom distribuir o excelente trabalho antropológico feito pela saudosa Marilyn Salvador da Universidade de New Mexico sobre a arte efémera nestas festas da açorianidade. A ficção de Katherine Vaz, no que concerne aos festejos do Divino, não foge à realidade.

Dean é ainda protótipo de muitos filhos e netos de emigrantes que pouco ou nada falam a língua portuguesa.  É o próprio protagonista que confessa: “falo o meu português, quebrado, de vez em quando.  E sou autodidata.  Mas sou, pelos menos tangencialmente, parte da comunidade Lusitana—um Luso-Americano—Portugal tendo sido chamado Lusitânia pelos romanos.”  As gerações mais distantes, são produto de uma era em que não havia escolas portuguesas, ou escolas americanas onde se lecionasse português.  Se hoje há escolas comunitárias a queixarem-se que há falta de alunos, Dean é produto de uma época em que o português era passado em casa pelos pais, pelo menos aqueles que viam na transmissão da sua língua materna algum mérito.  Mas além do seu pouco conhecimento da língua portuguesa, e de uma visão meramente superficial do seu legado histórico-cultural, Dean ainda se considera “tangencialmente” luso-americano.  É fascinante encontrar-se, um pouco por toda a parte da Califórnia, muitos Deans.  São homens e mulheres que, sem qualquer conhecimento profundo das suas raízes, ainda se identificam com a terra dos seus antepassados.  Que trabalho há ainda por fazer para se chegar a esses milhares de açor-americanos!  Que labor há ainda a confecionar para que esta saga não se repita!

E o desenrolar do conto toca num outro aspeto que está na moda, e ainda bem, nos Estados Unidos, o redescobrimento das raízes.  É o próprio Dean que o diz e que o questiona:

Nos nossos dias as pessoas gostam de se reivindicar como produto—e quero dizer isso mesmo—da terra dos seus antepassados; isso traz-nos cerimoniais e  auréola e voos de grandeza, com mais encanto do que as listas de compras em que se tornaram os nossos dias. Eu sou assim, também.  Os meus pais queriam ser  americanos mas as pessoas da minha idade querem  pegar na porção mais exótica do seu sangue e pintarem-se com carácter.  O problema é que colecionamos  impressões efémeras e pretendemos que são sensações adquiridas.  Eu sou tão culpado como o meu próximo. (tradução livre)

Esta citação abole alguns dos enigmas com que ainda queremos viver nas nossas comunidades portuguesas da Califórnia.  É indubitável que o movimento da descoberta das raízes foi (é) moda nos States.  Mas a busca pelo passado e pela identidade, com o advento dos centros de estudos étnicos em muitas universidades deste estado, e do país, têm alicerçado e legitimado essa inquirição.  Hoje, em muitas faculdades dos Estados Unidos há uma preocupação pelos estudos, em várias vertentes, relacionados com a identidade.  Precisamos fazer mais, muito mais, para que a identidade lusa seja mais conhecida, mais pesquisada, mais estudada.  Até que ponto é que essa descoberta, no que concerne aos luso-descendentes, passará de moda? 

Como se poderá perceber no conto de Katherine Vaz, empunhar “a porção mais exótica” de um legado cultural como bandeira não terá qualquer perenidade.  Daí que se entenda quando os políticos luso-americanos sejam seletivos e apareçam nas nossas comunidades e, maioria dos casos, apenas nas nossas cerimónias mais pomposas, i.e., a visita de um presidente de governo ou de um embaixador.  Há que distinguir as “impressões efémeras” de que por vezes, tal como Dean se refere, nos entram, ou querem que entrem como “sensações adquiridas”.  E não pensemos que estas “impressões…sensações” são exclusivas dos políticos.  São extremamente mais abrangentes.  Infelizmente atingem não só a classe política, mas também os professores, os bancários, os agentes de vendas, até mesmo os vaqueiros e os escritores.  

O nosso protagonista tem outra peculiaridade.  É que um pedaço de terra que o pai não quer leva-o aos Açores.   Embora fiquemos a saber, que este pedaço de terra é pretexto para outras razões, é interessante notar que nesta passagem patenteia-se, mais uma vez o desprezo que o pai tem pela sua terra.  Primeiro o regresso aos Açores, sua terra de origem e onde cresceu até aos dezoito anos, está fora de questão.  Segundo, a pouca importância dada ao pedaço de terra e até mesmo aos argumentos das famílias.  O pai de Dean alude que nem tão pouco sabe porque as famílias lutam pelo fragmento de terra que herdou.  É que para ele, esse quinhão que nos Açores acham muito não é maior do que o jardim da sua casa.  Aqui é notório o estereotipo do emigrante que cedo se esquece da dimensão da sua ilha e se perde na finitude do novo continente.  Utilizando as extensões como exoneração o conto fala-nos do emigrante que para justificar a sua vivência no mundo americano, talvez até mesmo a defesa necessária para dizer que ainda é gente, distancia-se da sua terra, enaltecendo tudo o que o rodeia, enegrecendo tudo o que deixou.  Já disto nos fala outro livro da emigração, o singular romance Já Não Gosto de Chocolates de Álamo de Oliveira.  

A passagem de Dean pela ilha do pai está repleta das falsas noções com que muitos filhos e netos de emigrantes se alimentavam, e agora de outra forma ainda se alimentam.  São os homens que fumam muito, nem que na América não se fumasse; as peripécias nos aeroportos de chegada, nem que isso não acontecesse em qualquer parte do mundo onde as emoções comandam; o Buick velho com os cintos de segurança que não funcionavam, nem que não haja carros novos nos Açores; o estado das estradas, nem que todos os caminhos da América fossem bons; as cortinas envelhecidas, nem que na Califórnia toda a gente tivesse cortinas novas ou casas com cortinas; o primo com a amante, nem que na terra da promiscuidade fosse tudo santo; da mulher submissa, nem que na América houvesse plena emancipação; e finalmente, de um terceirense que não gosta de touros, como se isso não fosse possível.  Apesar de muito disto ser antropológico, existem, infelizmente, novos clichés e nos estereótipos.  

Para além destas trivialidades, que desafortunadamente ainda são vistas na superficialidade por alguns jovens que visitam a terra dos seus progenitores, Dean tem a felicidade de descobrir uma ilha, um povo e alguns dos seus mitos.  O protagonista nem só desenterra o segredo que o pai ocultou durante décadas, o filho que supostamente deixou ao emigrar com dezoito anos, daí a razão por que não era benévolo para com a ilha onde nasceu, como reconhece a beleza da simplicidade do povo da terra do pai, que também poderá ser a sua, se assim o desejar e se soubermos construir pontes com as novas gerações.  Dean aprende muito mais do que naquela ilha, teve um irmão.  Ele descobre que há um mundo com os seus mitos e a sua história, um mundo que nunca poderia compreender sem ir, sem estar, sem sentir o útero da ilha, onde nasceu todo o misticismo que um dia os emigrantes levaram na bagagem, mas que nem sempre quiseram, souberam ou puderam harmonizar com o novo mundo.

A busca de Dean por D. Sebastião, mais do que uma exploração do Sebastianismo, é uma ótima metáfora para uma comunidade que ainda tem muito a descobrir.  Nos nossos dias de intercâmbios e aldeias globais há que abolir as fronteiras que ainda separam os Deans da Califórnia com a terra e a cultura dos seus antepassados. Há que haver coragem de sermos nós próprios a passar o nosso legado cultural, a nossa história, o nosso passado, o bom com o menos bom.  O pai de Dean, ao mandá-lo para os Açores, é a analogia perfeita das associações portuguesas da diáspora que depositam no governo das ilhas a responsabilidade pelo crescimento cultural dos seus membros. 

Katherine Vaz, neste seu trabalho muito açoriano, My Hunt for King Sebastião, apresenta-nos um pouco do mundo complexo e até mesmo desfigurado das segundas e terceiras gerações, daqueles que nascidos na Califórnia ainda têm um passado açoriano.  É o desenrolar de uma teia que há muito preocupa quem vive estes dilemas por perto, de quem os sente na pele.  De quem planta raízes na diáspora. 

Por tudo o que Katherine Vaz disse e não disse, este conto vale a pena ser lido e relido pelos descendentes de quem um dia saiu das ilhas à procura de uma nova vida.  Nele está um cosmos de perplexidades que por vezes gostaríamos de emudecer.  Na realidade existem verdades que só a ficção é que as pode contar.

PBBI/DB/RÁDIOILHÉU

Mauricio De Jesus
Maurício de Jesus é o editor da Rádio Ilhéu.