DIÁSPORA

OPINIÃO | Dessas Águas de Sombra*, por Diniz Borges

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Em outubro de 1968, um casal de jovens, com 38 e 33 anos, nascidos e criados no concelho da Praia da Vitória, ilha Terceira, Açores, emigraram para os Estados Unidos.  Trouxeram consigo dois filhos, e como todos os emigrantes daquela época, e quem sabe se de todos os tempos, um saco cheio de sonhos.  Esses jovens, meus pais, faziam a caminhada que tantos outros tinham feito, inclusive o meu avô materno no longínquo ano de 1910. Dos dois rebentos, sou o mais velho e tinha então 10 anos.  No centro da Califórnia, sempre à beira da cidade de Tulare, que é geminada com Angra do Heroísmo desde 1966, cresci, sonhei, trabalhei, estudei, ri e chorei.  Aqui me fiz homem, aqui casei com um jovem terceirense, aqui plantei raízes, aqui nasceram os meus filhos, aqui enterrei os meus pais.  Para o bem e para o mau, a comunidade portuguesa da Califórnia tem sido a minha vida.

À beira dos18 anos comecei um programa de rádio em língua portuguesa.  Com 22 uma estação de rádio em circuito fechado, totalmente em português. Nesta pequena cidade, no meio da ruralidade californiana sonhei com projetos utópicos, criando e dirigindo um simpósio literário que durante uma dúzia de anos tentou, através das artes, particularmente da literatura, mudar a comunidade e a precessão que se tinha (talvez ainda se tenha) sobre a nossa comunidade, a nossa diápora, em Portugal, particularmente nos Açores.  Aqui durante mais de duas décadas ensinei a língua e cultura portuguesas a alunos do ensino secundário, concebendo uma amalgama de eventos e aticidades que tentaram projetar a comunidade no mainstream americano e ter o mundo da língua portuguesa, e as suas diversas culturas, nas escolas americanas, onde estão os nossos filhos e netos.  Para que a língua e as culturas do mundo da língua portuguesa tivessem a mesma presença que outras tinham e têm. 

Ao longo das últimas quatro décadas tentei ainda pensar e repensar a comunidade.  Através da minha colaboração com vários jornais publicados em língua portuguesa, aqui nos Estados Unidos e nos Açores, tenho tentado como ativista de tudo o que é comunidade portuguesa, mas com o distanciamento possível, refletir sobre as nossas vivências portuguesas, partocularmente açorianas e madeirenses, de ilhéus, em terras californianas.  Daí a publicação de textos em jornais e em livros.  Do ensino à política,  da literatura à solcilogia, tento tentado publicar textos baseados em vivências e experiências de um inábil aprendiz da vida, que no estado da Califórnia, para onde veio com 10 anos, tenta viver Portugal, e de uma forma muito particular os Açores, todos os dias.  Tem sido, e continuarão a ser textos, que na sua essência são uma pequena tentativa para registar o percurso de uma comunidade, da sua ligação à sua terra de origem ou à terra dos seus antecessores, e da sua integração no mundo americano, no multiculturalíssimo estado da Califórnia, que há mais de 150 anos recebe emigrantes oriundos das Ilhas de Bruma.

Apesar dos avanços que temos feito, como comunidade, como diáspora no mundo californiano, há ainda uma grande percentagem do que fazemos (grande demais na minha perspetiva) que existe motivada pelo sentimento único da nossa saudade, a qual não é sentida (como facilmente se entende), pelo menos da mesma forma, pela nova comunidade que desponta um pouco por todo este estado.  Os textos que ailinhavo são meros fragmentos de uma comunidade vivendo a metamorfose natural de todos os emigrantes e seus descendentes neste colossal estado da união americana.  Espero que, de uma forma ou de outra, sirvam como pequena achega para a compreensão das nossas vivências portuguesas em terras californianas.  Nem sempre são populares, porque tento trazer uma dose de realismo ao lirismo que por vezes utilizamos no nosso quotidiano, ou, pior ainda, ao paternalismo dos poderes centrais, que nos represenatam ou nos visitam.  Ainda caímos facilmente por um elogio gratuito ou uma presença ornamental.

Em alguns segmentos, a comunidade, na sua plenitude começa a sair da confortável sombra da saudade e isso é muito bom porque permitir-nos-á que usufruarmos do sol brilhante que o multiculturalismo californiano tem para dar.  No mundo do mais colossal estado da união americana, que se fosse país independente seria a quinta economia mundial, e onde há uma riqueza gigantesca na critividade étnica que engloba os 40 milhoes de habitantes deste Golden State, nós açorianos, e açor-descendentes, temos de, como escreveu o poeta Álamo Oliveira: ligar o peito com o fio que / vai da vida à raíz / e dentro de cada verso ter o mar / e o sonho.”  O mar das ilhas e o sonho americano interlaçados, sem sobressaltos nem dramatismos, mas unidos na contínua construção da diáspora que somos e que queremos ser. 

*do poema Raízes de Otília Frayão

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