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OPINIÃO | Espírito Santo: A semente da discórdia entre o povo do Topo, por Cecília Brasil

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No coração da pacata Vila do Topo, encontra-se um dos poucos Impérios do Espírito Santo que, desafiando o correr dos tempos, mantém abertas as suas portas. Não por obrigação, mas por devoção dos seus guardiões. É um convite silencioso, dirigido a qualquer alma que deseje contemplar as suas insígnias e, no íntimo, celebrar o Divino. Este império, habita no centro da vila como se fosse o eixo de todas as encruzilhadas, um ponto onde caminhos se cruzam, decisões se pesam, e onde a divindade sussurra suas orientações. Entre os ilhéus, mesmo os que não seguem à risca as leis cristãs, vive uma fé que transcende a doutrina. É nessa fé que a celebração do Espírito Santo se torna o ponto mais alto da nossa identidade insular, uma expressão de pertença e transcendência. A celebração do pagão, revestido pelos adornos institucionais de fé. Não é por acaso que o culto ao Espírito Santo encontrou eco profundo nestas ilhas. Aqui, a fé cristã entrelaçou-se com a natureza, com o passado de povos diversos, com um misticismo herdado e reinventado. A divindade ganhou novos rostos, novas formas de ser compreendida, moldado pelo temperamento da mãe natureza. 

Na singeleza da ponta do Topo, na ilha de São Jorge, um lugar que sempre viveu entre fé e os desafios da sua pequenez, isolado pela serra e pelo mar, aqui, o Espírito Santo assume proporções grandiosas. Mesmo em tempos modernos, quando a população se reduz a pouco mais de mil habitantes, repartidos entre as freguesias de Nossa Senhora do Rosário da Vila do Topo e Santo Antão, a fé continua a ser o elo maior, capaz de mobilizar toda a comunidade. Nas duas freguesias, o culto apresenta rituais idênticos, bastante distintos dos restantes da ilha, revelando a forte influência da ilha Terceira. Cada freguesia possui o seu Império, a sua Irmandade, e a sua Casa do Espírito Santo, humildes monumentos de comunhão e tradição. Curiosamente, foi o próprio culto ao Divino Espírito Santo que acabou por semear a discórdia entre o povo do Topo, levando à separação formal das duas freguesias.

Após o terramoto de 1757, conhecido como o Sismo do Mandato de Deus, a antiga Ermida de Sta. Rosa de Viterbo foi destruída. Em resposta, construiu-se uma nova ermida dedicada a Santo Antão, no lugar da Ribeira Seca, onde os moradores das terras altas — criadores de gado e gente humilde, passaram a reunir-se aos domingos para viver a sua fé, enquanto a Vila do Topo, com suas casas senhoriais, mantinha as festas religiosas, incluindo as do Espírito Santo. Era tradição os mordomos das partes altas descerem em cortejo nos dias de véspera do fim de semana da celebração, com grandes carradas de bois, com pão cozido e outros apetrechos para a festa. O cortejo tornava-se espetáculo, e a rapaziada ansiosamente esperava por ele como quem espera uma festa para os olhos e para o estômago. Os mordomos e suas comitivas ficavam na vila por alguns dias, alojados em ‘casas de meias’ ou em palheiros arrendados por uns dias. Mas nem tudo era celebração! Já por volta de 1850 existia entre os habitantes do curato de S. Antão o desejo de separar o então Concelho da Vila Nova do Topo em duas freguesias. 

Esse desejo foi-se acentuando com o tempo, alimentado por um certo desdém vindo dos moradores da vila, que viam com superioridade os seus conterrâneos das zonas altas. Os habitantes do alto do Topo, frequentemente apelidados de “carneiros do monte”, sentiam na pele a diferença social. E assim, após os festejos, regressavam em cortejo às suas paragens altas, levando consigo as bênçãos e memórias da celebração — num ciclo que se repetia ao longo das sete semanas dedicadas ao Espírito Santo. Cada semana era organizada por uma irmandade, que passava de mordomo a mordomo, num rodízio que ainda hoje se mantém vivo. 

João Silveira Leonardo, emigrante retornado, ao testemunhar o desprezo pelos devotos das zonas altas, deu inicio a luta pela autonomia desta localidade. Mas o que veio a precipitar a verdadeira rutura foi o incidente de 1883. Conforme relata Manuel Maria Silveira Bettencourt (MMSB) no Jornal Eco Jorgense, de 11 de outubro de 1891, “(…) um [mordomo], que tinha por seu turno obrigação de contribuir para os festejos da segunda dominga depois da Páscoa (a Dominga da Fatia), quis que tal celebração fosse realizada na Ermida do curato de Santo Antão, onde residia, oferecendo o jantar aos irmãos em sua própria casa, como mordomo (…) No fim do jantar, um cavalheiro (…) pediu autorização ao reverendo Sr. Vigário para colocar a coroa na Ermida de Santo Antão”, o que foi permitido, como cumprimento de voto durante a semana.

Essa decisão gerou grande controvérsia! Os “senhores da Vila”, zelosos do seu prestígio não aceitaram de bom grado esta descentralização do sagrado e organizam um grupo de cavaleiros da Vila que tentou recolher a coroa à força. Como não conseguiram, voltaram com mais apoio e com a Filarmónica, já com ordens do Vigário, e levaram a coroa. Em resposta, o povo de Santo Antão decidiu encomendar uma nova coroa. Esta foi abençoada pelo Sr. Bispo D. João chegando no ano seguinte, e assim se fez a primeira coroação com a coroa própria no domingo de 1 de junho de 1884. 

Os jornais da época relatam episódios quase épicos sobre a primeira coroação: MMSB conta, que quando o mordomo e seus convidados seguiam em direção à igreja, “cruzam-se com um grupo de topenses que, em arremedo de procissão, carregavam uma boneca de porcelana, dizendo ser mais digna do que o ‘molho de prata’ que os de Santo Antão transportavam”(  E.J. de 24/01/1891). Enquanto isso, no Bairro de São Pedro, o Morgado João Ignácio de Noronha (um fervoroso apoiante da coroação em S. Antão) reuniu o seu grupo, com bolos preparados na véspera, montou a cavalo e partiu rumo à ermida. Num certo ponto do caminho, “depararam-se com um grupo de burros anões que espezinhou os devotos, destruiu os bolos e ainda houve um que mordeu a mão de uma mulher” (E.J. 10/ 1884).

Noutra frente, um grupo liderado por João Silveira Leonardo partiu do Cruzal transportando consigo 3.600 bolos (O Velense, nº 109, 08/1884). Segundo a tradição oral, “eles levaram o prato e a coroa na mão até à igreja” João S. Leonardo, nunca a largava, pois temia que, se a deixasse no altar, os da Vila do Topo viessem buscá-la. O Cura da freguesia de S. Antão, tinha sido proibido de fazer as coroações – Eram os próprios, que passavam a bandeira do Espírito Santo por cima das esmolas para as benzer – Quando os mordomos de S. Antão “distribuíam os bolos subjantes, heis que irrompe a galope, um grupo de topenses no meio do arraial, atropelando o povo. João Ignácio de Noronha, monta a cavalo e tenta fazer frente aos seus patrícios. Sozinho contra tantos acabou por ser derrubado do cavalo e na queda partiu uma perna” (MMSB – E.J. 1/11/1884) “apesar de tudo, das mãos mordidas, das pernas partidas e de, possivelmente, muitas outras lesões que as crónicas não dizem, ainda houve sobreviventes para ir ao “jantar da festa”, em casa do mordomo (…) mas era gente a mais e as traves do sobrado da casa do mordomo não aguentaram e foi tudo parar à loja” (E.J. 1/10/1884). Os que escaparam ilesos e de saúde, não desanimaram e vieram para a rua esperar pela terça-feira, em que uns de S. Tomé, tiveram grandes dificuldades em chegar a casa devido à surra que apanharam” pelo pessoal do Topo (F. Borba, E.J. 1/8/1884).  Segundo os relatos de F. B., “o escândalo era enorme e o Ouvidor Eclesiástico, que a todo o custo tinha tentado evitar o alvoroço, procurando convencer o Padre Francisco Amorim a não proibir a coroação, sentiu tal perturbação que faleceu pouco tempo depois”. Depois de toda esta atribulação, a freguesia de S. Antão conseguiu conquistar a sua autonomia e tornou-se oficialmente independente no ano de 1889.

Os episódios vividos no Topo mostram como a fé, símbolo de união, pode também dividir quando usada em disputas de poder e identidade. O culto ao Divino Espírito Santo, em vez de comunhão, tornou-se palco de tensões sociais e rivalidades locais. Esses conflitos, ainda que enraizados na tradição, revelam a fragilidade humana por trás das instituições, lembrando que, até mesmo onde a devoção é profunda, a intolerância pode surgir quando a fé se mistura com ambição e desejo de domínio. No entanto a grandiosidade do culto ao Divino Espírito Santo nos Açores surgi-o capacidade de reunir gentes de diferentes crenças, etnias e origens, que aqui se cruzaram e moldaram uma fé comum, ampla e inclusiva. Foi nesse espírito de comunhão que comunidades como S. Antão e a Vila do Topo, outrora rivais, hoje celebram juntas a tradição, dando vida a festas que expressam a diversidade e a identidade espiritual construída ao longo dos séculos no arquipélago.

Artigo escrito por Cecília Brasil, e originalmente publicado no Jornal Açoriano Oriental com base em relatos orais e em documentos facultados por Paulo Teixeira, no âmbito do programa da Rádio Ilhéu “A Devoção de um Povo”.

Mauricio De Jesus
Maurício de Jesus é o Diretor de Programação da Rádio Ilhéu, sediada na Ilha de São Jorge. É também autor da rubrica 'Cronicas da Ilha e de Um Ilhéu' que é emitida em rádios locais, regionais e da diáspora desde 2015.