ÚLTIMAS

TERCEIRA | COFIT vê-se forçado a suspender a 20.ª feira de Artesanato e Sabores Tradicionais

116views

O Comité Organizador de Festivais Internacionais da Ilha Terceira (COFIT) informa, com elevado sentido de responsabilidade institucional e cívica, que se vê forçado a suspender, no presente ano, a realização da 20.ª Feira de Artesanato e Sabores Tradicionais, evento integrado no programa do FOLK AZORES e que, ao longo de duas décadas, se afirmou como um dos mais relevantes instrumentos de promoção cultural, turística e económica da Ilha Terceira e da Região Autónoma dos Açores.

Esta decisão não decorre de qualquer falha organizativa, nem de quebra de procura, nem de ausência de parceiros internacionais. Resulta exclusivamente de um conjunto de indeferimentos e suspensões de apoio financeiro por parte de entidades públicas regionais, que inviabilizam a execução financeira do evento nos termos previstos e contratualizados.

O CADA – Centro de Artesanato e Design dos Açores, maior patrocinador da iniciativa, comunicou formalmente o indeferimento do apoio solicitado este ano, após longos anos de apoio constante, o que inviabiliza a realização da 20.ª Feira de Artesanato e Sabores Tradicionais.

Paralelamente, a Direção Regional do Turismo suspendeu o apoio enquadrado no Decreto Legislativo Regional n.º 18/2005/A, de 20 de julho, diploma que regula o financiamento público de iniciativas com interesse para a promoção do destino turístico Açores.

Estamos, assim, perante decisões políticas com consequências diretas, mensuráveis e estruturais.

A Feira de Artesanato e Sabores Tradicionais não é um evento marginal no calendário regional. É o espaço de contacto direto entre a comunidade açoriana e mais de uma dezena de delegações internacionais, que aqui chegam por sua iniciativa, suportando os próprios custos de deslocação, trazendo consigo artesanato, gastronomia, tradições e, sobretudo, capacidade de difusão internacional da marca “Açores”.

A suspensão da Feira de Artesanato e Sabores Tradicionais significa:

  • O único local privilegiado e criado para o efeito para a difusão cultural de todos os grupos de folclore da ilha Terceira;
  • A perda de um palco privilegiado de intercâmbio cultural efetivo;
  • A redução do impacto mediático internacional associado ao FOLK AZORES;
  • Um sinal negativo para parceiros estrangeiros que, ano após ano, escolhem os Açores como destino cultural;
  • Um enfraquecimento da estratégia de promoção turística baseada na diferenciação cultural.

Mais grave ainda: estas decisões colocam em causa a própria realização do FOLK AZORES, evento certificado por organizações internacionais ligadas à UNESCO e reconhecido no circuito mundial dos festivais internacionais de folclore como uma referência de qualidade, dimensão e organização.

O impacto do FOLK AZORES e da Feira de Artesanato e Sabores Tradicionais não se esgota na vertente cultural. É um impacto económico direto e indireto:

  • Taxas de ocupação hoteleira elevadas em plena época alta;
  • Incremento significativo na restauração, comércio tradicional e serviços turísticos;
  • Contratação de empresas locais nas áreas de som, luz, transportes, alojamento e logística;
  • Promoção espontânea junto de comunidades emigrantes e operadores internacionais.

Ao longo dos anos, o evento tem contribuído para consolidar a imagem dos Açores como destino cultural seguro, estruturado e com capacidade organizativa de dimensão internacional. Retirar apoio estrutural a uma iniciativa com este histórico significa fragilizar uma política pública que, até aqui, se afirmava como estratégica para o desenvolvimento sustentável da Região.

O COFIT aguarda, neste momento, decisão da Direção Regional da Cultura relativamente ao apoio solicitado, desconhecendo se serão adotadas idênticas medidas restritivas. Contudo, a sucessão de suspensões já verificadas cria um cenário de instabilidade institucional que não pode ser ignorado.

Foi já solicitado ao Senhor Presidente do Governo Regional dos Açores que intervenha institucionalmente, reavaliando o impacto destas decisões e ponderando soluções que impeçam que a Região perca um dos seus mais eficazes instrumentos de diplomacia cultural, promoção externa e captação indireta de fluxos turísticos.

Não se trata apenas da suspensão de uma feira. Trata-se de uma opção política com repercussões:

  • Na credibilidade internacional dos Açores;
  • Na confiança dos parceiros estrangeiros;
  • Na estabilidade do setor cultural associativo;
  • Na coerência da estratégia regional de promoção turística.

O COFIT reafirma que continuará a atuar com transparência, rigor e responsabilidade financeira. Porém, não pode assumir sozinho o ónus de uma política pública que reconhece o valor estratégico da cultura e do turismo, mas que, na prática, retira os instrumentos necessários à sua concretização.

A Região Autónoma dos Açores enfrenta agora uma escolha clara: reforçar a sua posição no mapa cultural mundial ou aceitar um retrocesso silencioso com consequências económicas e reputacionais difíceis de reverter.

COFIT/RÁDIOILHÉU

Mauricio De Jesus
Maurício de Jesus é o Diretor de Programação da Rádio Ilhéu, sediada na Ilha de São Jorge. É também autor da rubrica 'Cronicas da Ilha e de Um Ilhéu' que é emitida em rádios locais, regionais e da diáspora desde 2015.