SÃO JORGE

“Retalhos Soltos” para a História do Concelho da Calheta (X) | A Ermida de Santo Antão – 133º aniversário da freguesia, por Paulo Teixeira

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Fajã de São João, 6 de junho de 2022

Antão é o Santo protetor dos animais e é também o padroeiro da freguesia de Santo Antão, no Concelho da Calheta, Ilha de São Jorge, criada por desanexação da de Nossa Senhora do Rosário por Decreto de 6 de junho de 1889. É, pois, no assinalar dos 133 anos da freguesia que urdimos mais um retalho, que se espera possa ajudar a perceber um pouco mais desta freguesia.

Em 1095, numa localidade próxima de Viena, os nobres Gastão de La Valloire e seu filho Guerin, apanhados por uma doença que fez muitas vítimas e viria a ser conhecida por “Fogo de Santo Antão” (nome que se deu na Idade Média a uma espécie de erisipela epidêmica), rezaram a este Santo e agraciados com a cura, fundaram a ordem assistencial dos “Irmãos Hospitalares de Santo Antão”.

Terá sido com base nesta Ordem que começou o culto e caracterização iconográfica do próprio Santo, de bordão com campainha, acompanhado de um porco, levando a que, mais tarde, fosse mesmo considerado o protetor universal dos animais.

A Ordem de Santo Antão teve declarados privilégios de poder empregar pedintes que, equipados da campainha, se faziam anunciar na recolha de fundos, tendo assim ficado o bordão associado à imagem, tal como ficou o porco, na razão que a Ordem tinha o privilégio de poder soltar ilimitado número destes animais na via pública, que serviam para alimentar/ curar os doentes, pois acreditava-se que a sua carne e a gordura aplicada nas feridas tinham o poder de combater a doença.

Na Matriz do Concelho de Vila Nova do Topo esta é uma das muitas Confrarias que podemos encontrar, como aliás se pode atestar pelo testamento de Isabel Neta em 1610, ainda que não refira em concreto a de Santo Antão, sabemos que a sua imagem juntamente com a de São Caetano, estariam hospedados na Capela de Santa Ana, considerada a Santa Grande ou Maior.

Francisco Fernando de Borba consultou, em data que se desconhece, o livro nº. 4 da Arca da Fábrica Menor que referencia a existência desta Confraria em 1727, mas como alude havia mais três livros que não encontrou e, por conseguinte, desconhece-se quando e como começou a Confraria de Santo Antão na Vila do Topo.

Na consulta ao livro de assento das pessoas que devem plantar amoreiras em Vila Nova do Topo de 1687, ficamos a conhecer aqueles que são os lugares povoados do então Concelho, quando elenca os moradores de “Grotões e São Tomé”, do “Cruzal”, das “Sete Fontes e Ribeira Seca”, do “Norte e Ribeira de São Pedro”, da Vila e Fajã de São João. Numa ligeira avaliação podemos verificar que o espaço que hoje corresponde a Santa Rosa e até às Sete Fontes, era então a Ribeira Seca de Vila Nova do Topo.

Sabemos por escritura de 30 de dezembro de 1728 da doação de dois mil reis anuais para a Fábrica da Ermida de Santa Rosa de Viterbo e assim tivesse o seu vinculo para puder funcionar. Desconhece-se a localização exata desta Ermida, que ficou totalmente destruída pelo grande sismo de 1757 que ficou para a história como o Mandado de Deus, mas o topónimo ficou e mais tarde seria construída nova Ermida, agora no cemitério, mas de invocação a Santa Rosa de Lima.

Provavelmente muitas das pessoas do que é hoje Santo Antão já se tinham habituado à ideia de ir à missa mais perto de casa e como tal voltar à Vila era muito longe, contexto em que é feito a 15-4-1764 uma petição ao Senhor Bispo, de Alvará de execução para a Ermida de Santo Antão, para os moradores e vizinhos da Ribeira Seca puderem assistir à missa e demais atividades do culto religioso.

Na exposição é dito que a Confraria dispõe de nove mil reis anuais de renda com que seria então dotada a Ermida e o lugar para a sua fundação é o terreno que fica num caminho largo por trás de umas casas que ali tem o Sargento Mor Bartolomeu da Silveira Soutomayor e diante de outras do Ajudante Alexandre Pereira de Sousa e do Sargento Pedro Teixeira Brasil , personalidades que apresentam, em setembro de 1764, um “termo porque se obrigam ao reparo e conservação do culto da Ermida do Senhor Santo Antão que se tenta erigir”.

Em outubro de 1764, é decidido que “atendendo ao que na petição representaram os moradores de Vila Nova do Topo da ilha de São Jorge, que na sua devoção e bem comum do povo querem fazer erigir uma Ermida com invocação do Senhor Santo Antão no lugar da Ribeira Seca, termo da dita Vila, com a renda anual de nove mil reis que a Confraria do dito Santo já tem, pelo presente concedemos licença aos referidos moradores de Vila Nova do Topo para que possam erigir a dita Ermida com a invocação do Senhor Santo Antão no dito lugar.”

É, pois, no seguimento da tragédia de 1757 que surge a Ermida de invocação ao Senhor Santo Antão e como vimos autorizada a partir de outubro de 1764. Não sabemos quanto tempo terá demorado a sua construção, mas sabemos pelo testamento, datado de 6 de abril de 1772, do Padre António de Sousa e de sua irmã Isabel Caetano do Rosário que: – “declarando ela testadora que no sitio da Ribeira Seca – hoje chamado de Santo Antão – onde se fez uma Ermida do mesmo santo, em que eles testadores e seus irmãos concorreram não só com as boas vontades” e que se localiza “defronte das casas de seus pais, onde ela testadora foi criada”.

Temos aqui forma de balizar o espaço temporal de construção da Ermida entre 1764 e 1772, como temos conhecimento que a construção da Ermida de Santo Antão veio redefinir a toponímia do local que assim deixou de se chamar Ribeira Seca. Aliás este topónimo que terá representado uma extensa área viria a ficar unicamente referenciado na Ribeira e num Calhau, onde se ia à pesca ou às lapas e muitos vezes se trazia sacas de agriões de água por ali serem abundantes.

Consultando o livro nº. 4 da Arca menor podemos verificar que o mordomo José de Souza Nunes sucede a José Silveira de Azevedo em 1758 e com exceção do ano de 1763 (Silvestre Machado) continua no cargo sem se saber até quando, uma vez que a partir de 1765 deixa de estar identificado o mordomo até 1792 em que o mordomo é Manuel Silveira de Sousa . Ora a Confraria de Santo Antão está claramente associada à construção da Ermida, como se pode conferir, também, no livro nº. 4 da Arca.

No mesmo livro podemos encontrar um registo posterior a 1 de outubro de 1763 com o assento de “despendemos mais para a ajuda da obra da Ermida do Senhor Santo Antão, cento e setenta e um mil e trezentos e trinta e cinco reis – subscrevem Vigário Sousa; Cura Sousa e Cura Borges”.

Segue-se um registo subscrito pelo Vigário Melo de “despendeu-se com gastos da Ermida de pedreiros, retelhos, porta, tirantes, cal, tafetá, pano para forro do frontal, vidraça, vidros, madeira e feitio, rede verga amarela, a quantia de duzentos mil reis”.


Registe-se ainda que “despendemos treze mil reis desta Confraria, que se entregarão ao mordomo dela Alferes Manuel Silveira Nunes para ajuda do teto novo que se fez à Ermida de Santo Antão no Corpo como na Capela da dita Ermida”.

Em 1850 o Padre Ambrósio Constantino Pacheco da Silveira, sobrinho neto dos testadores que atrás ficaram registados, faz o seu testamento em que deixa a sua fortuna para colocar na Ermida de Santo Antão o Santíssimo Sacramento e até “mesmo elevar a paróquia regular, como é da minha intenção”. Sobre este sacerdote escreve Padre Manuel Azevedo da Cunha nas suas Notas Históricas que a sua memória deve ser imorredoira para o povo de Santo Antão.

Estes bens do Padre Ambrósio, que eram geridos pela Junta de Paróquia do Topo, só em 1862 foram usados para fazer algumas reparações que nem incluiu as pinturas, conforme relata Padre Evaristo que diz que quando essas verbas forem geridas pela Junta de Paróquia de Santo Antão, “quanto não será possível fazer!?”.

Estes bens ainda causaram mal-estar quando a Junta de Paróquia do Topo pretendeu vender os bens de Padre Ambrósio para adquirir um órgão, pois o que estava na Matriz ficara destruído pelo sismo de 1757 e a Ermida de Santo Antão, entretanto, tinha um órgão graças ao labor e empenho do Padre Francisco Xavier.
Acreditamos que estes bens tenham mesmo passado para a Paróquia de Santo Antão, por força do oficio do Governador Civil, dirigido ao Administrador do Concelho da Calheta, datado de 9 de dezembro de 1889, quando refere que “Devolvo a V. Exa. o incluso orçamento ordinário da Junta de Paróquia de Nossa Senhora do Rosário do Topo desse Concelho para o futuro ano de 1890, a fim de que V. Exa. o remeta à referida corporação para o reformar, eliminando na receita a parte correspondente ao legado deixado à igreja de Santo Antão pelo presbítero Ambrósio Constantino Pacheco da Silveira, legado que tem de ser aplicado à côngrua do pároco da nova paróquia de Santo Antão, creada por decreto publicado a 14 de julho do corrente ano.”

A resistência da Junta de Paróquia do Topo à criação da nova Paróquia de Santo Antão, é evidente e ganha novo fôlego com o falecimento, em janeiro de 1889, do 2º Conde da Praia da Vitória , contudo já havia sido decidido e faltava a publicação que aconteceria por Decreto de 6 de junho de 1889 e publicado a 14 do mês de julho de mesmo ano. Não conseguindo inverter esta decisão a Junta de Paróquia do Topo, avança em reunião de 21 de setembro de 1889, realizada na Ermida de Santo Antão com autoridades civis e religiosas, com uma segunda proposta para alterar a divisão da freguesia que defendem deve ser pela Ribeira do Lexias e a Igreja da nova paróquia seria a Ermida de São João Batista, pois a de Santo Antão não reunia condições para o efeito.

É a Comissão da Confraria de Nossa Senhora de Lourdes, legalizada com estatutos próprios desde 4 de outubro de 1886, que se responsabiliza por suprimir as necessidades, perante o Ouvidor do Distrito de Angra, para reclassificar a Ermida em Igreja, como as alfaias em falta, o batistério, pia batismal, ambulo para os óleos, cruz paroquial paramentada, umbela e cemitério. Conforme escreve o Padre João Evaristo, todas estas coisas estavam resolvidas nove meses depois e a Ermida de invocação a Santo Antão, que haveria de batizar a freguesia, passando de curato a Paróquia e igreja sede da freguesia. Ficava assim resolvida a vertente religiosa, a administrativa concretiza-se em agosto de 1891 e a primeira eleição da Junta de Freguesia em fins de 1895, presidida pelo primeiro professor da escola masculina de Santo Antão, Senhor Manuel Henrique da Silveira Borges.

Em memória de todos quantos contribuíram para a edificação da freguesia, fica este retalho, que assinala neste dia do seu 133º aniversário, a história do surgimento da Ermida que haveria de batizar a própria freguesia de Santo Antão.

Mauricio De Jesus
Maurício de Jesus é o Diretor de Programação da Rádio Ilhéu, sediada na Ilha de São Jorge. É também autor da rubrica 'Cronicas da Ilha e de Um Ilhéu' que é emitida em rádios locais, regionais e da diáspora desde 2015.