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OPINIÃO | Quebrar Barreiras e Construir o Futuro: Do processo político americano e da nossa Diáspora, por Diniz Borges

Diniz (Dennis) Borges Portuguese Beyond Borders Institute-Director FOTO | Legenda: Cliff Costa, Diniz Borges, Michael Borges;
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Nada me chateia mais do que ouvir um político dizer
que não devemos criar alarme social. A sociedade tem de 
estar alarmada, que é a sua forma de estar viva.
José Saramago, escritor português (1922-2010)

A epígrafe é paradigmática da relevância do mundo da política nas vidas dos cidadãos e da importância de estarmos intimamente ligados ao mundo político.  Num processo democrático, seja ele em Portugal, nos Estados Unidos, no Canadá ou em qualquer outro país soberano onde o povo tem, teoricamente (e talvez não só), uma voz, a participação activa do cidadão comum é imperiosa.  Com o jogo político em países como os Estados Unidos da América extremamente marcado pelas influências do grande capital, que quotidianamente compra políticos, quer com ofertas extremamente generosas—estou recordado do autocolante que comprei algures e dizia: investe na América, compra um político – quer também na aquisição de votos, através das constantes campanhas de propaganda, à qual damos o eufemismo de “publicidade política”, torna-se imperatório, num sistema destes (o sistema para o qual caminham todas as democracias) não só o voto consciente e elucidado dos cidadãos, mas também a sua participação no processo eleitoral, especialmente nas campanhas dos candidatos e em referendos que afetam diretamente a nossa Diáspora no mundo americano.  Embora seja cliché, porque tem sido utilizado ao ponto de exaustão, a realidade é que não pudemos deixar os destinos das nossas comunidades em mãos alheias.  Com a nossa inevitável assimilação nas sociedades onde vivemos, há que penetrar, ativamente, a vida política desses mesmos países, particularmente aqui nos Estados Unidos.

Se todo o homem não passa dum bicho político como afirmou Aristóteles, os emigrantes açorianos e seus descendentes no continente norte-americano terão de pouco a pouco enfrentar a realidade das sociedades onde escolheram viver e participarem ainda mais aticamente nos destinos dessas nações.  A apatia dos nossos primeiros anos de emigração, que ainda se vive em alguns locais, terá de ser rompida e necessitamos formar coligações que unam os açor-americanos em processos inovadores que nos levem a ter outra voz nestes mosaicos humanos onde refazemos as nossas vidas – onde os açor-descendentes já pertencem por completo, há várias gerações.  E creio que o nosso movimento associativo tem uma palavra muito importante nesse capítulo.  Mais uma vez o nosso associativismo poderá ser a tal força catalisadora que congregue os emigrantes e seus descendentes à volta de uma causa, que os faça despertar para os efeitos positivos de sermos politicamente infatigáveis.  

Existe uma amalgama de configurações que podem levar as nossas associações a ter uma outra palavra nas decisões que afectam a zona, o estado e o país onde vivem.  É que as associações, normalmente representam centenas de votantes, mas raramente utilizam esse privilégio para se movimentarem no campo político.  Se é certo que temos uma grande percentagem de emigrantes que saiu dos Açores sem qualquer cultura política, não é menos correcto que depois das campanhas discriminatórias de vários países de acolhimento, o caso concreto do Estados Unidos, muitos emigrantes têm optado pela aquisição da cidadania americana, tornando-nos numa fonte de poder, relativo e à nossa escala, claro, mas de poder, porque possuidores da cidadania americana, sem perderem a portuguesa, detemos, utilizando um termo bélico, a chamada “arma do voto”.  Mais, as segundas, terceiras e sucessivas gerações já votam há décadas, mas por vezes sem uma forte ligação ao poder que esse voto pode tee dentro do seio comunitário.  

Seguem-se, portanto algumas meras sugestões para que as nossas associações culturais e sociais possam, dentro do sistema americano (e talvez canadiano), trabalharem em prol de uma cidadania participativa.

1º-Para que as nossas comunidades atinjam outro patamar nas vivências da sociedade americana, há que instituir programas de participação cívica.  Isto é: as associações terão de providenciar as suas estruturas físicas e humanas e, simultaneamente, informar o meio onde vivem que esse processo está a desenrolar-se. São inúmeras as vezes que nós fazemos actividades interessantes no nosso meio ambiente comunitário, e as mesmas ficam totalmente despercebidas pelo mundo que nos rodeia.  Um político, qualquer político, minimamente atento nos Estados ficará extremamente interessado numa associação que desenvolve programas de participação cívica.

2º -É essencial que haja um plano de incentivo e informação.  Aqui o papel do nosso associativismo é fundamental.  Primeiro são os próprios membros que podem e devem ser encorajados a terem uma voz no processo político, sem recorreremos a partidarismos.  E há muitas formas de o fazer.  Desde um simples cartão de recenseamento enviado junto com as cotas, até uma mesa de recenseamento e informação eleitoral nas atividades sociais das nossas associações.  A promoção de semanas de conhecimento cívico com panfletos enviados às entidades políticas das zonas onde as associações estão inseridas, para que saibam que há um novo interesse na promoção de uma cidadania participativa.

3º-Promover sessões de esclarecimento, especialmente perto das eleições.  Todos os candidatos, para todos os cargos, e mais concretamente para os cargos locais, estão disponíveis para participarem em sessões de elucidação.  A organização que convidar os candidatos a tais fóruns será, indubitavelmente, a que receberá maior atenção dos políticos.  Isso já acontece com alguns projectos pilotos.  Aliás, a cidade de Santa Clara na Califórnia fê-lo, porque em tempos idos queria a rtp-internacional nos canais de cabo locais.  Criaram uma tradição que ainda continua.  Se a língua foi barreira em tempos de outrora, não é o caso hoje.  Praticamente todas as associações possuem gente que domina o inglês, alguns sem conhecimento da língua portuguesa.  Mais, estas sessões de esclarecimento, se forem abertas a todas as etnicidades, através de “notas da imprensa” para a comunicação social em língua inglesa terá outro impacto.  Fará algum mal às nossas associações serem inovadoras e abrirem-se a todos os grupos que coabitam o multiculturalismo americano?  Já o fazem para alugar os seus salões.  Na califórnia, a vasta maioria teria fechado se não fossem os alugueres feitos por outros grupos étnicos. 

4º-Encorajar os jovens a participarem no processo político.  Criando espaços de debate e reflexão, mesmo para os menores de 18 anos, tentando incutir-lhes o desejo, e até mesmo a necessidade, de serem cidadãos participativos.  Incentivando-os para se envolverem directamente nas campanhas políticas.  É que todos os candidatos precisam de voluntários que lhes coloquem cartazes, distribuam panfletos, façam telefonemas, etc. A Coligação Portuguesa da Califórnia (California Portuguese-Americana Coalition) tem um projeto nesse sentido, trazendo eleitos de ascendência portuguesa junto desses jovens com testemunhos e informação pragmáticas.  

5º- Promover sessões de esclarecimento sobre as plataformas eleitorais dos próprios candidatos e partidos, assim como instruir os votantes acerca das múltiplas leis em referendo e as suas consequências nas vidas dos cidadãos.

6º- Incentivar os membros a votarem nos dias dos actos eleitorais com cartões ou telefonemas, pedindo-lhes que sejam activos e que exerçam os seus deveres cívicos, como o fez em tempos idos, o  Portuguese-American Citizneship Project, com o apoio da FLAD – Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento e o Governo dos Açores.

7º- Encorajar elementos das nossas associações a concorrerem a cargos políticos, especialmente a nível local.  Há uma grande necessidade de termos outra representatividade, particularmente nas comissões locais e regionais, nos distritos escolares e nas Câmaras Municipais, entre outros.

8º Criar a possibilidade de termos uma voz no mundo político também através do poder económico.  O dinheiro é rei, dizia um político luso-americano recentemente eleito.  Se na realidade o cidadão comum não tem o mesmo poder económico das grandes multinacionais, as ofertas monetárias em pequena escala também contam e feitas em associação têm outro peso.  É certo que o nosso movimento associativo não pode participar, devido ao seu status no processo fiscal como entidade(s) sem fins lucrativos, mas pode facultar outros serviços e outras formulas que são licitas e autorizadas pelo sistema eleitoral americano.  A comunidade pode em muitos lugares do mundo americano não ter a significância numérica, mas como outras etnias já o demonstraram, pode ter o poder económico.      

Em género de conclusão dir-se-á que é urgente que se tenha uma grande dose de pragmatismo e que se faça um trabalho de safa junto do nosso movimento associativo para que haja uma maior participação da nossa Diáspora, e neste caso específico, nos Estados Unidos da América.  Esse esforço terá de ser multilateral, e terá de ter a compreensão e o investimento de várias fontes em ambos os lados do atlântico, porque é de todo o interesse, cá e lá, que as nossas associações tenham, finalmente, esse peso político, essa presença no “mainstream” americano.  Acredito que estamos no momento certo.  Acredito que com um plano ambicioso, detalhado, compreendido e aceite pelo nosso movimento associativo teremos ainda muitos frutos a recolher.  É que para muitas das nossas associações, tal como disse Albert Einstein: a política é mais difícil do que a física.  E não podemos ficar por aqui.  Não devemos aceitar que o nosso movimento associativo exista só para festas – e essas também podem ter várias vertentes, incluindo a política.  A nossa Diáspora, através do nosso movimento associativo, também tem de criar os seus alarmes, porque faz parte de estarmos vivos e de termos voz. 

PBBI/DB/RÁDIOILHÉU

Mauricio De Jesus
Maurício de Jesus é o editor da Rádio Ilhéu.