OPINIÃO | Clímaco Ferreira da Cunha: Entre a Memória e a Eternidade, por Sérgio Santos

Parte hoje o Sr. Clímaco, figura cuja existência se distinguiu por uma invulgar consciência histórica e por um compromisso firme e esclarecido com a preservação da memória coletiva. A sua vida confirma, de modo exemplar, a intuição de Cícero: “A vida dos mortos reside na memória dos vivos.” É, pois, nesse domínio – o da permanência memorial – que a sua presença continuará a inscrever-se, não como vestígio passivo, mas como referência ativa e formadora.
Homem profundamente atento à História, à cultura e às tradições da sua terra, não entendia esse interesse como simples inclinação erudita, mas como um imperativo de natureza ética e cívica. Nele reconhecia-se a verdade contida nas palavras de Miguel Torga: “O universal é o local sem paredes.” Compreendia, com lucidez rara, que a salvaguarda do passado local não constitui um exercício de nostalgia, mas um gesto de afirmação da própria dignidade humana, pois é na singularidade das experiências concretas que se revela a universalidade da condição histórica.
Tendo conhecido o meu avô, dirigia-se a mim com a afabilidade que lhe era própria, tratando-me por “Marquês”, num gesto que transcendia a mera cortesia e assumia a forma de um reconhecimento simbólico do outro, fundado no respeito e na consideração. Essa forma de relação revelava uma qualidade humana cada vez mais rara: a capacidade de atribuir valor às pessoas e aos seus percursos, inscrevendo-os numa continuidade de sentido.
No âmbito da minha investigação sobre a Crise Sísmica de 1964, concedeu-me uma entrevista longa e intelectualmente notável, marcada pela clareza da memória, pelo rigor do testemunho e pela profundidade da reflexão. Para si, investigar não era um simples exercício de evocação, mas um verdadeiro compromisso com a verdade histórica, entendida como responsabilidade perante o tempo e perante as gerações futuras. A sua atitude evoca, inevitavelmente, as palavras de Fernando Pessoa: “Tudo vale a pena, se a alma não é pequena.” E a sua alma revelava-se ampla na generosidade e elevada na consciência do dever.
Aquando da publicação do livro dedicado a esse acontecimento, manifestou uma emoção contida, mas profundamente significativa, própria de quem reconhece o valor duradouro do conhecimento e a sua capacidade de resistir ao esquecimento. Mais tarde, em sua casa, evocámos esse momento com a serenidade daqueles que compreendem que preservar a memória não é apenas recordar, mas conferir permanência ao que o tempo tende a dissolver.
Também durante o meu estágio pedagógico, voltou a demonstrar, de forma inequívoca, o seu sentido de responsabilidade histórica, ao colaborar com a cedência de fotografias para uma exposição sobre a Guerra Colonial e ao disponibilizar, com dignidade e consciência, as listas dos ex-combatentes. Estes gestos ultrapassam o plano da colaboração circunstancial: constituem, antes, expressões coerentes de uma vida orientada por uma ética da memória, fundada no respeito pelos homens e pelos acontecimentos que deram forma ao nosso presente.
Recordo, em particular, um episódio da minha adolescência que, pela sua singularidade, revela com clareza a sua forma de compreender a continuidade entre o tempo vivido e o tempo preservado. Numa ocasião do Pão-por-Deus, deixou à porta de sua casa uma pequena caixa de chocolates destinada às crianças que ali passavam. Com a serenidade que o caracterizava, pedia a cada um que retirasse apenas um chocolate e que registasse o seu nome. Esse gesto, aparentemente simples, continha uma intencionalidade mais profunda: não era apenas um ato de generosidade, mas um exercício consciente de preservação da memória e de observação da vitalidade das tradições. Mais tarde, guardou essa lista de nomes e integrou-a, de forma ilustrativa, num livro que editou, como testemunho da renovação dos costumes e da permanência dos valores. Nesse registo, tornava-se evidente que, mesmo não estando presente, as crianças continuavam a procurar aquele lugar e a agir com respeito, retirando apenas o que lhes era permitido e deixando o seu nome como sinal de passagem. Também o meu nome lá ficou inscrito – discreto, entre tantos outros – mas, para mim, carregado de um significado que só o tempo veio a revelar. Era a prova silenciosa de que também eu havia participado, ainda que de forma simples, nessa continuidade entre gerações, nesse fio invisível que liga a experiência vivida à memória preservada.
O Sr. Clímaco permanecerá, assim, como um exemplo de integridade moral, de generosidade intelectual e de fidelidade à memória enquanto fundamento da identidade e da continuidade humanas. Porque, como escreveu Vergílio Ferreira, “Não é o tempo que passa por nós, somos nós que passamos pelo tempo.” E ele passou pelo tempo não como simples presença transitória, mas como consciência atuante – deixando marca, deixando sentido, deixando legado.
Até sempre, Sr. Clímaco.
Artigo de opinião de autoria de Sérgio Manuel Fontes dos Santos; Mestre em Ensino da História no 3º ciclo do Ensino Básico e no ensino Secundário






