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OPINIÃO | A desestruturação da América: Os desmoronamentos económicos e sociais de uma deportação maciça, por Diniz Borges

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Os imigrantes trazem uma renovação da nossa vida nacional, 
são eles que nos mantêm dinâmicos e progressistas. 
Fechar as nossas portas seria trair a nossa história. 
John F. kennedy

A deportação maciça de trabalhadores indocumentados tem sido um tema controverso no discurso político dos EUA, que Donald Trump alegremente amplificou.  Quem defende um retorno de todos quantos aqui estão sem documentos baseia-se no princípio de um estado de leis, que uns podem quebrar e outros não, e, os opositores alertam para as consequências económicas, sociais e diplomáticas. Embora os aspetos morais e legais da deportação sejam, e ainda bem, amplamente debatidos, os efeitos na economia, na classe média e nas relações internacionais dos EUA merecem uma reflexão.  Não sejamos ingénuos, para além da ilegalidade de muitos decretos presidências, literalmente dezenas nas últimas semanas, a deportação maciça de indocumentados conta vários precedentes históricos, com dados económicos significativos e com uma dinâmica geopolítica muito delicada.  Tal como escreveu o Papa Francisco: “Os migrantes não são peões no tabuleiro de xadrez da humanidade. São crianças, mulheres e homens que deixam ou são forçados a deixar as suas casas por várias razões.” 

Um dos efeitos mais imediatos e de maior alcance da deportação em massa seria o seu impacto na economia dos EUA. Os imigrantes sem documentos constituem uma parte significativa da mão de obra em sectores como a agricultura, a construção, a hotelaria e a indústria transformadora. A sua remoção resultaria numa grave escassez de mão de obra, levando a interrupções na produção e na prestação de serviços. A American Farm Bureau Federation (associação agrícola) avisou que um programa de deportação em grande escala prejudicaria o sector agrícola, uma vez que, quase metade dos trabalhadores agrícolas do país são imigrantes indocumentados. Sem esta mão de obra, os preços dos alimentos aumentariam devido a uma maior dependência de mão de obra nacional dispendiosa, (se a encontrarmos, porque poucos querem fazer esse tipo de trabalho) ou de importações do estrangeiro.  Ironicamente os empresários da agricultura, particularmente em estados como a Califórnia, Texas, Idaho, Wisconsin e outros votaram em elevada percentagem por Donald Trump. 

Para além da agricultura, a indústria da construção, que depende fortemente da mão de obra imigrante, enfrentaria custos mais elevados e atrasos nos projetos. O sector da hotelaria, que inclui restaurantes, hotéis e serviços de limpeza, também teria dificuldade em preencher postos de trabalho, o que levaria a um aumento dos custos operacionais e ao potencial encerramento de muitas pequenas e médias empresas. O sector da indústria transformadora, sobretudo em estados como o Texas e a Califórnia, sofreria perturbações na mão de obra, o que teria um impacto ainda maior nas redes de abastecimento e nos preços ao consumidor.  Os preços que Donald Trump disse-nos que começariam a descer logo que tomasse posse e tudo indica, como já se sabia, que não o farão.  

As repercussões económicas vão para além da escassez de mão de obra. A Administração da Segurança Social estima que os trabalhadores indocumentados contribuem anualmente com milhares de milhões de dólares para a este sistema e para o Medicare através dos impostos sobre os salários, apesar de não serem elegíveis para benefícios-havendo estados que têm os seus programas para protegerem quem precisa de cuidados de saúde. Com a sua saída do país estes programas agravariam os seus défices, resultando no sonho da oligarquia americana: a abolição total do pacato estado social estadunidense.  Acrescente-se, os gastos dos consumidores, um dos principais motores da economia dos EUA, que diminuiriam, uma vez que os deportados deixariam de participar na economia através da habitação, alimentação, transportes entre outros setores.  

De todos os grupos económicos, a classe média, particularmente a média-baixa, sofreria os efeitos diretos e indiretos das deportações. Se há quem defenda que o afastamento dos trabalhadores indocumentados poderia abrir oportunidades de emprego para os americanos nativos, conduzindo potencialmente a aumentos salariais em determinados sectores de baixos salários, e há, porém, todos os estudos, dizem-nos o contrário, e o que na realidade sabemos, ou seja: imigrantes indocumentados aceitam frequentemente empregos que os cidadãos americanos não querem desempenhar, sobretudo em sectores de mão de obra intensa. A saída repentina destes trabalhadores obrigará as empresas a aumentarem os salários para atraírem novos empregados, o que certamente agravará os custos para os consumidores.

Mais, a instabilidade económica, resultante de deportações maciças também terá efeitos negativos na classe média. Os mercados imobiliários sofrerão volatilidade, uma vez que as deportações conduzirão a propriedades abandonadas e a execuções hipotecárias, reduzindo, em muitas zonas e cidades o valor das propriedades. As cidades com grandes populações de imigrantes, como Los Angeles, Nova Iorque e Miami, entre outras, enfrentariam dificuldades financeiras devido à diminuição das receitas fiscais, o que levará a cortes nos serviços públicos, como a educação, os cuidados de saúde e a manutenção das infraestruturas.  Aliás, este é o objetivo de Donald Trump.  O intuito é orquestrar a maior instabilidade social e económica nas grandes cidades americanas, baluartes do partido democrático.  Daí que a maioria das rusgas t6em sido feitas em cidades e não em meios rurais onde Trump recebeu muito apoio. 

No sector dos cuidados de saúde, os hospitais que servem as comunidades de imigrantes terão dificuldades financeiras devido a uma perda súbita de doentes que anteriormente pagavam os serviços médicos, particularmente em clínicas privadas. Esta situação levará ao encerramento de hospitais ou ao aumento dos custos dos cuidados de saúde para os restantes residentes. E ninguém fala das pequenas empresas, muitas das quais dependem de clientes e trabalhadores imigrantes, as quais verão as suas receitas diminuir, o que levará a encerramentos e perdas de emprego, afetando, diretamente, a classe média americana. 

A deportação em larga escala de imigrantes sem documentos, muitos dos quais originários de países da América Latina, terá (já está a ter com as ameaças do Presidente) profundas consequências diplomáticas. As relações com parceiros comerciais importantes, como o México, a Guatemala, as Honduras e El Salvador, deteriorarão devido às crises económicas e humanitárias que a deportação maciça desencadeará. Estes países terão dificuldade em receber o imprevisto afluxo de deportados, muitos dos quais vivem nos EUA há décadas e não têm laços económicos ou sociais com os seus países de origem.

No México, por exemplo, a deportação maciça sobrecarregará os serviços sociais, exacerbará o desemprego e aumentar a pressão sobre a aplicação da lei para gerir os indivíduos deslocados. Surgirão desafios semelhantes nos países da América Central, onde as economias frágeis e a instabilidade política já contribuem para as pressões migratórias.  Já lá vão muitos anos desde que o ditador mexicano do século XIX, Porfírio Diaz, disse uma frase que tem sido ecoada de geração em geração: “Pobre México, tão longe de Deus, tão perto dos Estados Unidos.”

Do ponto de vista comercial, a deterioração das relações com os países vizinhos conduzirá a retaliações económicas. O México e o Canadá são dois dos maiores parceiros comerciais dos Estados Unidos ao abrigo do Acordo EUA-México-Canadá (USMCA). Uma rutura nas relações diplomáticas resultará, nas ameaças que já estamos a ver: barreiras comerciais, tarifas ou medidas de retaliação que prejudicarão as indústrias americanas dependentes das exportações, e mais importante o cidadão comum. Os produtores agrícolas, os fabricantes de automóveis e as empresas de energia serão particularmente vulneráveis a essas perturbações.  Em causa está ainda a cooperação de segurança dos EUA com os países vizinhos. Quer queiramos quer não, e apesar dos insultos e das aberrações do atual inquilino da Casa Branca, os EUA dependem dos governos do México e da América Central na interdição de drogas, na prevenção do tráfico de pessoas e na segurança das fronteiras. Relações tensas resultarão numa redução na cooperação, aumentando os riscos associados ao crime transnacional e aos fluxos de drogas ilícitas.

Além das perturbações económicas imediatas, a deportação maciça terá consequências a longo prazo para a força de trabalho e a composição demográfica. Os EUA enfrentam uma população envelhecida e taxas de natalidade em declínio, o que torna a mão de obra imigrante vital para sustentar o crescimento económico e apoiar programas sociais.  Com a deportação de milhões de trabalhadores haverá uma enorme escassez nos sectores da saúde, particularmente nos cuidados de idosos, onde a mão de obra imigrante desempenha um papel crucial.

Os Estados Unidos têm beneficiado historicamente do espírito empreendedor dos imigrantes, muitos dos quais criam pequenas empresas que contribuem para a criação de emprego e para a vitalidade económica da nação americana. A extinção de uma parte significativa da população imigrante sufocará a inovação e reduzirá a diversidade das contribuições económicas que ajudam o país a manter-se competitivo num mundo globalizado.

A coesão social também será afetada.  Já está à vista as tensões entre as comunidades de imigrantes e não imigrantes.  As rusgas em locais de trabalho e vigilância da comunidade estão, diariamente, a provocar pânico e desconfiança, especificamente entre os imigrantes legais e os cidadãos de origem imigrante.  Teremos, certamente, implicações mais vastas na participação cívica e no tecido social geral do país.

Uma abordagem equilibrada que considerasse as necessidades económicas, as realidades da força de trabalho e os interesses diplomáticos seria mais benéfica do que uma deportação maciça. Uma reforma das leis da imigração que inclua vias para o estatuto legal, para a integração da mão de obra que a América necessita, e medidas estratégicas para criar um programa equitativo e com passos para a legalização e a cidadania, produziria resultados muito mais benéficos para a economia dos EUA e para a classe média americana, a coluna dorsal deste país, mantendo simultaneamente relações positivas e de cooperação com as nações vizinhas.  Mas esse não é o caminho desta administração.  Pena, porque como nos alertou há anos o Bispo Desmond Tutu:  “Uma sociedade que deporta os mais vulneráveis entre nós é uma sociedade que perdeu a sua bússola moral. “

Mauricio De Jesus
Maurício de Jesus é o Diretor de Programação da Rádio Ilhéu, sediada na Ilha de São Jorge. É também autor da rubrica 'Cronicas da Ilha e de Um Ilhéu' que é emitida em rádios locais, regionais e da diáspora desde 2015.