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AGENDA | Rita Gomes regressa à poesia com “A Bicicleta Açoriana” 

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A Bicicleta Açoriana”, segundo livro de poemas de Rita Gomes, propõe uma  travessia física e simbólica pela paisagem, pela memória e pela introspeção,  tendo a bicicleta como eixo central de movimento, contemplação e significado. A  obra surge depois da estreia da autora com “Corações que Correm, Cabeças  que Amam” e aprofunda uma escrita marcada pela relação entre palavra,  liberdade e autoconhecimento. 

Natural do Porto, Rita Gomes nasceu em 1975 e construiu o seu percurso  académico e profissional na área do desporto, sendo licenciada e mestre pela  Faculdade de Desporto da Universidade do Porto. Professora de Educação  Física, é também treinadora, formadora e comentadora televisiva. Apesar de  uma formação ancorada nas ciências exatas e no alto rendimento, encontrou  desde cedo na escrita, na música e na fotografia formas privilegiadas de  expressão emocional e reflexão pessoal. 

Em “A Bicicleta Açoriana”, a autora parte da experiência das viagens e dos  regressos para construir uma poesia em movimento, onde o corpo que pedala  se transforma num corpo que observa, sente e escreve. A bicicleta deixa de ser  apenas meio de transporte para se tornar metáfora de ligação entre paisagem e  pensamento, luta e espanto, ritmo e respiração. A palavra assume esse  movimento contínuo, levando o leitor por percursos onde o tempo abranda, o  espaço se abre e a ilha se torna infinita, entre o verde e o azul, o vento e o sal,  o cansaço físico e a mente desperta. “Há lugares onde, mal chegamos,  reconhecemos como ‘casa’. Sinto-me assim nos Açores e, em particular, em São  Miguel, a ilha onde vive a minha irmã. É um lugar onde vivo melhor quem sou,  ou que, pelo menos, sonho ser: poesia e liberdade”, explica Rita Gomes. “O meu  tempo gosta de andar ao ritmo da bicicleta: nem muito devagar, nem muito  depressa. É assim que pedalo as ilhas, uma a uma, cada uma. Com tempo para  semear, para a atenção plena, para a música, para o silêncio, para a natureza,  para me espantar, para colher, para partilhar. É nesta simbiose perfeita (entre  aquilo que o pedal e o que os sentidos recebem e devolvem, entre pausas e  avanços) que a poesia se sente, se vê, se lê, se escreve, se vive melhor”,  completou a autora. 

O traço de Urbano e a ‘voz’ da Garota 

A dimensão visual da obra assume igualmente um papel central, através das  ilustrações de Urbano, que constroem uma narrativa própria. Feitas de cor,  transparência, sobreposição, fauna e flora, as imagens ampliam sentidos,  prolongam silêncios e criam espaços de respiração dentro do livro, reforçando o  carácter sensorial da travessia proposta pela autora. “Numa dessas viagens de  bicicleta pela ilha, entrei numa exposição do Urbano, creio que foi em 2019 – Tempus Edax Rerum. Parecia que tinha entrado no traço e nas cores das minhas  pedaladas, da minha poesia. Procurei mais trabalhos (exposições, livros). 

Procurei o Urbano. Este livro só faria sentido com a sua generosidade artística.  E o mais engraçado, visto agora em 2026, é que o título dessa exposição significa ‘tempo devorador das coisas’ e é da autoria do poeta Ovídio  (Metamorfoses, XV, 234). E o que é este livro senão uma metamorfose? Da  viagem para o livro (poesia e ilustrações).” 

O prefácio é assinado por Cátia Oliveira, A Garota Não, cuja escrita é descrita  por Rita Gomes como uma voz de desassossego e transformação. “Ela é a voz  do meu – do nosso – desassossego. Tem o dom do tempo na ilha: transformador.  Ora se abre em luz no cinzento, ora expõe a bruma e a chuva ao sol. A sua  criação expressa a beleza dessa liberdade, desse contraste. Convida sempre ao  pedal, à ação. Consente a chegada, mas só para recuperar e amar, também, o  instante sossegado. Haverá sempre mais uma viagem, mais uma luta. Pedalei,  pedalo, em cima desse ‘beat’. Quero, queremos, perpetuar essa canção”,  revelou a autora. 

Para além da poesia, Rita Gomes conta com um percurso editorial diversificado,  sendo autora do DVD didático “Brincofísico”, dedicado à metodologia da  preparação física com crianças e jovens, do livro “A narrativa enquanto  instrumento de investigação e de autoconhecimento”, de vários artigos  científicos e capítulos de livros, bem como coautora do “EducVolei”, centrado na  metodologia do ensino do voleibol. 

A apresentação de “A Bicicleta Açoriana” terá lugar no dia 21 de fevereiro de  2026, às 15h00, na Livraria Letras Lavadas, em Ponta Delgada, Capital  Portuguesa da Cultura 2026. O evento contará com exposição das ilustrações  de Urbano e apresentação de Ana Oliveira. Estão igualmente previstas outras  apresentações no continente em datas a anunciar. 

LL/RÁDIOILHÉU

Mauricio De Jesus
Maurício de Jesus é o Diretor de Programação da Rádio Ilhéu, sediada na Ilha de São Jorge. É também autor da rubrica 'Cronicas da Ilha e de Um Ilhéu' que é emitida em rádios locais, regionais e da diáspora desde 2015.