OPINIÃOSÃO JORGE

OPINIÃO | São Jorge: a terra, o trabalho e a memória de uma sociedade, por Sérgio Santos

Sérgio Santos - Licenciado em História, com Menor em Estudos Europeus e atualmente estudante do Mestrado em Ensino de História no 3º ciclo do Ensino Básico e no Ensino Secundário, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra
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A história de São Jorge não se compreende verdadeiramente sem conhecer a sociedade rural que, ao longo de séculos, moldou a sua paisagem, a sua economia e a identidade das suas gentes. Por detrás dos campos delimitados por muros de pedra, das pastagens, das antigas habitações e dos caminhos que atravessam a ilha, existe uma história humana feita de trabalho, desigualdade, resistência e pertença.

Durante os séculos XVIII e XIX, a terra constituiu um dos principais elementos de organização da sociedade jorgense. A propriedade não representava apenas riqueza ou capacidade de produção; era também uma fonte de prestígio, influência e diferenciação social. A sua distribuição condicionava as oportunidades das famílias e estabelecia relações económicas e sociais que ultrapassavam largamente a dimensão agrícola.

O estudo de Paulo Silveira e Sousa, A gestão social da propriedade na ilha de São Jorge durante a segunda metade do século XIX, permite compreender esta realidade, revelando a importância da estrutura fundiária na organização da sociedade insular.

A vida da maioria da população estava profundamente ligada à agricultura e à pecuária. O trabalho familiar, a exploração de pequenas parcelas, a criação de gado e a produção de queijo constituíam pilares de uma economia que procurava responder às limitações próprias de um território insular. A terra era, simultaneamente, sustento, património e herança.

Mas a história rural jorgense não foi apenas uma história de trabalho. Foi também uma história de assimetrias sociais, de dependência económica e de diferentes possibilidades de acesso à propriedade. Enquanto algumas famílias consolidavam patrimónios e influência, muitas outras dependiam do trabalho agrícola e de recursos limitados para assegurar a sua subsistência.

Neste contexto, a emigração assumiu um papel determinante. Para muitos jorgenses, partir significava procurar fora da ilha aquilo que a economia local dificilmente conseguia proporcionar. A América tornou-se destino de esperança, mas também de separação e sacrifício. As remessas enviadas, os regressos e a aquisição de propriedades por algumas famílias contribuíram para transformar a estrutura económica e social da ilha.

A Calheta, pela sua história agrícola, comercial e marítima, constitui um território particularmente interessante para compreender estas transformações. A sua relação com a terra e com o mar demonstra como a identidade jorgense foi construída através da articulação entre diferentes atividades económicas e formas de organização comunitária.

Há, contudo, uma dimensão desta história que merece maior reconhecimento: o contributo das pessoas comuns. Os pequenos agricultores, os trabalhadores rurais, as mulheres que acumulavam o trabalho doméstico e agrícola e os emigrantes que partiram sem romper os laços com a sua terra foram protagonistas de uma história que nem sempre encontrou lugar nos registos oficiais.

É precisamente aqui que reside a importância de recuperar a memória rural de São Jorge. Não por qualquer exercício de nostalgia, mas pela necessidade de compreender as estruturas económicas, sociais e culturais que contribuíram para formar a comunidade que hoje somos.

A modernização transformou profundamente a ilha, mas não apagou as marcas da sua história. Permanecem na paisagem, nas propriedades familiares, nas tradições agrícolas, na produção do queijo, nas relações de vizinhança e na memória de sucessivas gerações.

São Jorge não é apenas um território definido pela sua geografia. É uma comunidade construída pelo trabalho de quem permaneceu, pela coragem de quem partiu e pela memória daqueles que, geração após geração, fizeram da adversidade uma forma de resistência.

Conhecer essa história é, acima de tudo, compreender que a identidade de uma ilha não nasce apenas da paisagem que a distingue, mas das pessoas que, ao longo do tempo, lhe deram significado.

Escrito por Prof. Sérgio Manuel Fontes dos Santos; Mestre em Ensino de História no 3º ciclo do Ensino Básico e no Ensino Secundário, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra; Investigador Integrado do Centro de Investigação Joaquim Veríssimo Serrão (CIJVS)

Mauricio De Jesus
Maurício de Jesus é o Diretor de Programação da Rádio Ilhéu, sediada na Ilha de São Jorge. É também autor da rubrica 'Cronicas da Ilha e de Um Ilhéu' que é emitida em rádios locais, regionais e da diáspora desde 2015.